“1917”: Sam Mendes coloca-nos no centro da guerra com experiência imersiva e avassaladora

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Com dez nomeações aos Oscars, 1917 é um drama épico contado com excelente mestria técnica e humanismo.

SINOPSE: “No auge da Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos, Schofield (George MacKay, Capitão Fantástico) e Blake (Dean-Charles Chapman, A Guerra dos Tronos), recebem uma missão aparentemente impossível. Numa corrida contra o tempo, têm de atravessar território inimigo e entregar uma mensagem que impedirá um ataque letal contra centenas de soldados, entre eles o irmão de Blake.”

Inspirados pela histórias do seu avô Alfred H. Mendes, pelos documentos presentes no Museu de Guerra Imperial britânico e suportando a ficção com o evento histórico da linha de Hindenburg, o realizador Sam Mendes, a co-argumentista Krysty Wilson-Cairns e o cinematógrafo Roger Deakins criaram “1917”.

Trata-se de um filme visceral construído com arrojo e mestria técnica, onde a precisão de movimentos entre câmara e atores cria um bailado exímio, que em nada se assemelha ao caos e violência do seu tema: as trincheiras esguias e claustrofóbicas, a solitária Terra de Ninguém, os teatros de guerra infindáveis, o inferno na terra, a Primeira Guerra Mundial.

Sam Mendes, que no seu último filme, “007 Spectre”, tinha espantado os fãs do franchise James Bond com um plano-sequência sob as ruas da Cidade do México, estende aqui a sua ambição.

De forma meticulosa, cronometrou todas as variáveis, desde o ritmo dos diálogos aos passos necessários para os atores percorrerem determinada distância; a largura e o comprimento das trincheiras à articulação da equipa que manuseia os equipamentos; e com recurso a edição digital fugaz e certeira, compõe uma experiência cinematográfica imersiva e avassaladora, num longo, contínuo e extraordinário plano.

Como Alfred, que serviu na Frente Ocidental com 19 anos de idade, o noviço, doce e inocente Blake (Dean-Charles Chapman) e o calmo, honrado e mais experiente Schofield (George MacKay), são os dois soldados do 8º batalhão indicados para atravessar a Terra de Ninguém e entregarem uma mensagem fulcral.

Como tantos outros homens, a sua determinação e superação são cruciais nestes momentos de risco e solidão, para prevenir erros crassos de estratégia e assegurando a sobrevivência de batalhões inteiros. Contra as balas e contra o tempo, literalmente corriam pelas suas vidas.

Sempre no encalce dos dois soldados, seguimos pelas trincheiras, rios, cascatas, lagos enlameados, crateras, tudo ambientes infernais vividos ao ritmo dos nossos protagonistas, não sabendo (por vezes) mais do que as costas do homem que segue na nossa frente, sentindo a ansiedade, o medo e vendo a morte em cada socalco de lama. Experienciamos um concentrado de eventos, que ecoa várias memórias da guerra, numa aventura por vezes até algo exagerada na quantidade de problemas que enfrentamos com os nossos “parceiros” no grande ecrã.

Guiados pelo trabalho impressionante de Roger Deakins e do designer de produção Dennis Gassner, persistentes, continuamos, cruzando-nos com altas patentes do exército, interpretadas por actores de enorme autoridade e gravitas: Colin Firth, Mark Strong, Andrew Scott, Benedict Cumberbatch e Richard Madden são serenos e imperativos no seu talento e ímpeto.

Nauseados, desolados e a gastar a última réstia de esperança, avançamos no “silêncio” ambiental da banda sonora melancólica de Thomas Newman. Tendo algumas semelhanças com o pulsar de “Dunkirk” (de Christopher Nolan, com banda sonora de Hans Zimmer), vai marcando o tique-taque sobre um drone ominoso, ameaçador, não nos deixando baixar a guarda. Porque Mendes não nos permite descanso, dando atenção a elementos menores, como um rato que se mexe ou um corvo que se regala nas vísceras abertas de um cavalo; ou isolando um tiro que nos assusta e um avião que se despenha. Impulsionados por súbitos ataques orquestrais, deixa-nos com os sentidos todos alerta… na ponta da cadeira na sala de cinema.

Por isso, com tanta tensão e ação, não é por acaso que o momento mais intenso de “1917” acabe por ser o seu mais solene e espiritual.

O soldado Schofield, após renascer das águas turbulentas de um rio, ouve a canção “Wayfaring Stranger”, lado a lado com um batalhão pronto para marchar para a morte. Os rostos dos homens, o olhar de George MacKay e a voz do ator Jos Slovick criam um momento belo e catártico, difícil de assimilar na sua totalidade, pois somente os jovens perdidos nesta brutalidade hedionda que foi a Primeira Guerra Mundial o compreenderam. E Schofield enche-se de forças e avança para a sua derradeira corrida…

“1917” presta homenagem aos seus soldados, fazendo-nos viver os horrores e o espírito de sacrifício da guerra infindável. Gloriosamente filmado, recria um jogo de emoções com habilidade, tornando-se, sem dúvida, um dos melhores filmes de 2020.

“1917”: nos cinemas a 23 de janeiro.

Crítica: Daniel Antero


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