A Idade das Sombras

Kim Jee-woon, Chan-wook Park e Joon-Ho Bong formam o tridente todo poderoso da Coreia do Sul, que elevaram o seu cinema a uma era dourada e se tornaram alvos apetecíveis da grande indústria norte-americana. Chan-wook Park por lá andou com o afamado Stoker, Bong Joon-Ho com o filme de culto SnowpiercerKim Jee-woon com The Last Stand, veículo de regresso para Arnold Schwarzenegger à liderança de uma película.

Com maior ou menor sucesso, os três sentiram necessidade de retornar à sua terra natal, talvez procurando de novo a liberdade criativa: Chan Wook Park, com Ah-ga-ssi (A Criada, filme esquecido nos óscares de 2017), Bong Joon-Ho investe numa produção Netflix, dividida a meias entre a Coreia do Sul e os EUA: Okja…e Kim Jee-woon escolheu A Idade das Sombras, um épico de espionagem passado na década de 1920, que acompanha um grupo de agentes secretos pertencentes à resistência coreana, contra a ocupação japonesa. E que melhor forma para voltar às origens!

Com um espírito de suspense Hitchcockiano, a imprevisibilidade dos thrillers de John Le Carré e a acção enérgica muito própria e distinta de Kim Jee-woon, A Idade das Sombras começa com uma perseguição em modo de bailado, enleado pelos telhados de uma aldeia, onde polícias saltam sem medo, em busca de Jan-ok, o nosso arquétipo da resistência: destemido, leal e mártir. Encurralado por Jung-Chool, um capitão coreano do lado errado da barricada que o quer vivo…Jan-ok só conhece uma saída…

Prólogo com aura de final, estabelece as estruturas das facções: Chefe Higashi, o Capitão Jong-Chool (Kang-ho Song, uma instituição do cinema asiático), e Hashimoto, um cão de fila da polícia japonesa, estão no encalço de Kim Woo-jin (Gong Yoo) e Jung Chae-San (Byung-hun Lee), líderes da resistência que se encontram em Xangai a comprar explosivos a anarquistas húngaros. Tanto de um lado como do outro, as ordens são fazerem-se passar por amigos da facção contrária e criar agentes duplos, para poderem entrar em Seoul com os explosivos.

Começa uma dança do gato e do rato entre Jong-Chool e Woo-Jin, onde as várias personagens se fundem e confundem, criando amizades improváveis e desmascarando falsos amigos, deixando espaço para a tensão nos toldar e não percebermos quem é que está de que lado…

Até que uma sequência brilhante dentro de um comboio, tem lugar. Kim Jee-woon alterna entre as personagens, vagueando entre as várias classes e carruagens, enquanto o viperino Hashimoto procura Kim Woo-jin; Jung-Chool tenta ludibriar Hashimoto; e Kim Woo-Jin engendra um plano para descobrir quem é o bufo na resistência. Tudo isto, com a dança e o ritmo abrupto e destemido da edição e câmara do realizador sul-coreano, que mantém a dúvida sempre presente, com toques de humor a dissimular-nos que afinal não vai haver o banho de sangue que julgamos estar prestes para acontecer.

Mas claro está, que se é de sangue que esperam, porque viram o I Saw The Devil do realizador, não terão de aguardar muito: o caos começa no comboio e os calabouços das prisões estão de portas abertas para receber os despojos…e os japoneses são criativos…

De crescendo em crescendo, A Idade das Sombras é um mash up de géneros, um livrete de pulp-fiction, onde o noir, o western e a espionagem se unem em arrojadas cenas de acção, para rebentar numa reinvenção musical do Bolero de Ravel, numa sequência altamente satisfatória na interpretação dos actores e na vontade dos espectadores.

Depois de inaugurar o Fantasporto 2017, A Idade das Sombras é um ex-líbris do cinema de acção que não podes perder…porque o cinema sul-coreano é raro nas nossas salas…e desta qualidade ainda mais.


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