“A Velha Guarda”. Charlize Theron é “bad-ass” eterna, mas filme cheira a mofo

⭐️⭐️ Filme da Netflix ocupa lugar vago pela ausência de blockbusters nos cinemas com fórmula simples e astuta.

SINOPSE: Quatro guerreiros imortais, que protegem a humanidade em segredo há séculos, são perseguidos pelos seus misteriosos poderes, justamente quando descobrem uma nova imortal.


Criado por Greg Rucka e Leandro Fernández na sua banda desenhada homónima, narra a história de um grupo de mercenários humanitários que vagueiam pelos séculos, presos numa imortalidade inexplicável.

Com esta premissa, numa era de reciclagem de sinopses com augúrio para encaixes financeiros e fidelização de clientes que buscam entretenimento rápido, a Netflix tem a oportunidade de manipular e alterar as peças a seu bel-prazer: personagens de diferentes credos podem ser despoletadas a qualquer momento; iterações auto-conclusivas com foco em guerras específicas podem servir como prequelas, sequelas ou spin-off; a diversidade e talento é uma questão contratual, pois a pré-produção é fluida o suficiente para se criar um registo/papel específico para um actor, realizador ou cenário.

Nesta aventura, o ônus da prova pertence à realizadora Gina Prince-Bythewood, à actriz sul-africana Charlize Theron, a Andromeda de Scyhtian ou Andy para os seus súbditos, ao francês Sebastian Le Livre ou Booker (interpretado pelo belga Matthias Schoenaerts), e o casal gay constituído por Yusuf Al-Kaysani ou Joe (holandês Marwan Kenzari) e Nicoló di Genova ou Nicky (italiano Luca Marinelli).

Com origens geográficas e temporais diferentes, estes imortais estão ligados telepaticamente, partilhando sonhos e reconhecendo em simultâneo quando mais um da sua espécie é “criado”.

Que é o que acontece quando “encontram” Nile Freeman (norte-americana Kiki Layne) soldado morta no Afeganistão, que de degolada passa a caminhar a terra miraculosamente. Com ela e como ela, somos os novos membros do grupo, introduzidos à mitologia desta sina perpétua, que até parece ser abençoada, mas para alguns deles é mais uma maldição difícil de suportar.

Aqui, The Old Guard distingue-se, com a realizadora Prince-Bythewood em busca incessante de momentos mais íntimos para as suas personagens, onde os traumas, angústias e o calejar do tempo lhes retiraram pompa e arrogância. Agora, têm o coração na boca, mas são mais como cowboys que querem ser deixados em paz.

Esta carga emotiva alimenta a acção, onde os guerreiros bailam a morte na frente dos seus opositores, como uma máquina oleada de combate. Mas os elementos técnicos e a previsibilidade do argumento retiram-lhe a voracidade: o twist final está escancarado; a banda sonora intrusiva faz cair o filme para um registo vídeo-clip; flashbacks mal-executados e apressados, fazem-nos ter vontade agir sobre o comando que temos na mão.

A Netflix acaba de encontrar um filão para franchisar. Pena que não tenha percebido o poder que é ter nas mãos um filme americano dirigido por uma mulher negra, um grupo multicultural de actores e duas actrizes a liderar… Deixou-o com o cansaço de eras.


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