“Blinded By The Light – O Poder Da Música”: o evangelho segundo São Bruce Springsteen

⭐️⭐️⭐️

Comédia usa a música como escape e a força rebelde da palavra do artista também conhecido por “The Boss”.

Da realizadora Gurinder Chadha (“Joga Como Beckham”), “Blinded By The Light – O Poder Da Música” é uma comédia sobre a música como escape e a força rebelde da palavra. E uma resposta ao Brexit que coloca em paralelo a nossa época com o Reino Unido dos tempos de Margaret Thatcher.

Javed (Viveik Kalra) é um jovem paquistanês britânico que vive em Luton, no seio da sua família tradicional, liderada por um pai (Kulvinder Ghir) trabalhador e dominador. Dentro de casa, as suas raízes e a pressão cultural estão sempre presentes. Fora dela, a ostracização perpetrada pela National Front mina a sociedade e cria o medo nos bairros. E tudo se agrava quando o pai fica desempregado.

Sentindo-se preso, Javed deixa os seus pensamentos à solta em diários, mas sente-se incompleto enquanto procura a sua voz e independência. Até ao dia em que descobre o apoio da professora Ms. Clay (Hayley Atwell), fã incondicional da sua escrita, e os versos de Bruce Springsteen.

A partir desse momento, o mundo abre-se e o jovem transforma-se, rebelando-se contra a sua cidade e as constrições do seu pai. Claramente uma narrativa “springsteeniana”.

“Blinded By The Light”, mantendo a sua toada honesta e genuína, passa então à busca da catarse de Javed, reunindo várias sequências que criam empatia, na forma como a assunção e interpretação das palavras de Bruce o movem para a ação.

“Flash mobs” “inesperadas” ao som de “Thunder Road”; as letras de “The Promised Land” a serem projetadas nas paredes; um beijo com “Prove It All Night” em “background”; e claro, uma “80´s montage” com uma corrida libertadora, ao som de… “Born to Run”.

Nesta ode à escrita de Bruce, Gurinder Chadha procura também explorar a ansiedade sobre o conservadorismo da era Thatcher e como isso se reflete na nossa dimensão. Consegue-o com ligeireza, fazendo Javed e os seus companheiros responderem às ameaças e agressões, através do uso da comédia e do absurdo, substituindo os diálogos de Javed por versos de músicas do cantor norte-americano.

A adulação ao “Boss” é de tal ordem que chega a sufocar “Blinded By The Light”, tanto pela repetição da mensagem como pela monotonia… na banda sonora. Mas isto acaba por ser coerente se introduzirmos a informação de que Sarfraz Manzoor, co-argumentista do filme, autor de “Greetings From Bury Park: A Memoir” e figura que gerou a criação da personagem Javed, viu Bruce Springsteen em concerto… 150 vezes.

Essa genuinidade está no filme, onde se sente o impulso adolescente de se cantar a plenos pulmões, acreditando que a música nos move e muda as nossas vidas.

“Blinded By The Light – O Poder Da Música”: nos cinemas a 29 de agosto.

Crítica: Daniel Antero


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