“Bombshell: O Escândalo”: Nicole Kidman, Margot Robbie e Charlize Theron num drama débil da era #MeToo

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Bombshell” é um palco de domínio e subserviência, onde depreciação, abuso e manipulação se ensaiam nos bastidores.

SINOPSE: Três jornalistas e comentadoras unem forças contra o assédio sexual do todo poderoso fundador e presidente do canal de notícias norte-americano Fox News.

Depois do documentário “Divide and Conquer”, de Alexis Bloom, e da série “The Loudest Voice”, do canal Showtime, o filme “Bombshell: O Escândalo”, realizado por Jay Roach (da trilogia “Austin Powers” e “Trumbo”) é a nova abordagem das implicações do movimento #MeToo.

No centro de tudo está a teia de intrigas, influência e intimidação sexual de Roger Ailes, o todo-poderoso CEO do canal FOX News. Em 2016, ele tornou-se mais uma face do mundo da informação e do entretenimento a cair com estrondo depois das jornalistas e apresentadoras Gretchen Carlson e Megyn Kelly o acusarem de assédio sexual e revelarem os comportamentos misóginos, sexistas e predatórios presentes na redação do canal.

Infelizmente, a realização de Jay Roach e o argumento de Charles Randolph não seguem o exemplo de coragem daquelas mulheres e abordam os eventos de um modo expositivo, palavroso e de estilo estético demasiado premente.

Com uma abordagem influenciada por filmes como “O Lobo de Wall Street” (Martin Scorsese) e “A Queda de Wall Street” (Adam McKay), este a maior influência de Roach e que partilha o mesmo argumentista, “Bombshell” está impregnado de impressões do registo formal de televisão bombástica e sensacionalista: “zooms” rápidos e descarados que em nada acrescentam à narrativa abundante em vozes-off, infografias, maquetes e legendas por todo o lado, que trazem uma sensação plástica de urgência desnecessária, quase tornando este exercício cinematográfico num “training video” condescendente sobre o comportamento irascível da objetificação da mulher.

Por outro lado, onde “Bombshell” se ajuíza é na apresentação do abuso predatório, no “bullying” e na coerção contínua de Ailes (John Lithgow a repugnar-nos). Neste patamar, o filme acalma o ritmo e diminui o volume das vozes, espelhando os sentimentos de humilhação e terror através das suas empenhadas atrizes.

Nicole Kidman é a paciente e objetiva Gretchen Carlson, a catalisadora do processo contra Ailes. Margot Robbie representa Kayla, uma personagem fictícia, amálgama de testemunhos, que concentra em si a angústia de várias vítimas, mostrando-a principalmente numa longa e desconfortável cena, tristemente real. Já Charlize Theron, numa assombrosa transfiguração de Megyn Kelly, depois de enfrentar o peso-pesado Donald Trump torna-se a chave desbloqueadora que dá coragem às outras mulheres e destituirá o CEO da FOX News.

As três nunca falam entre si ao mesmo tempo e quando cruzam o olhar no elevador, deslocando-se para o último andar onde se encontra o escritório de Roger Ailes, elevam este “Bombshell”, consubstanciando as suas ansiedades, sentido de subjugação, o pacto silencioso e a futura revolta.

Com isto, o filme é pertinente, com força para gerar conscientização de vítimas, fazer denúncia e dar visibilidade ao tema. Surpreendentemente, Roach ignora a sua própria astúcia irónica, tensa e requintada apresentada em filmes como “Recount” (2008) ou “Mudança de Jogo” (2012), removendo de “Bombshell” a sua necessária veemência, tornando-o uma chapada débil quando deveria ser um pujante murro no estômago.

“Bombshell – O Escândalo”: nos cinemas a 23 de janeiro.

Crítica: Daniel Antero


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