Mank: Conto sobre os bastidores da glória hollywoodesca e da propaganda política

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Escrito por Jack Fincher, pai de David Fincher, “Mank” é um filme verboso e pomposo na língua, absorvente, que exige a nossa atenção.

E o nosso olhar, para acompanhar a forma como evoca o estilo cinematográfico da época, através de uma esplendorosa orquestra de artesãos e de um poderoso anacronismo tecnológico.

Edificado com o melhor da tecnologia digital, “Mank” é “reduzido” em busca da essência estética da época. O recurso a áudio monaural comprimido e efeito de celulóide gasta e suja; a articulação de uma edição tanto paulatina como hipnótica, onde há espaço para as sobreposições e dissolves típicos e belos da época; o nível de produção de design fiel e sumptuoso; embrulham-nos no glamour preto e branco dos anos 30 e 40.

Se na forma e estilo, Fincher é um mestre reconhecido, no conteúdo, temos uma novidade: este é o filme mais político do realizador, que atento às estruturas de poder americanas, deixa no ar um paralelismo aos media corruptos dos nossos tempos.

“Mank” acompanha o período de convalescença física, mas fértil em criatividade, do argumentista Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), desdobrando-se em vários flashbacks que desvendam experiências passadas, catalisadoras na criação do argumento da grande obra do realizador Orson Welles: “Citizen Kane”.

De acordo com a versão da história aqui apresentada, foi de Mank, como era conhecido nos meios de Hollywood, que surgiu a inspiração para replicar o magnata de imprensa William Randolph Hearst na figura de Charles Kane, bem como a actriz Marion Davies na personagem Susan Alexander, sua esposa. E não de Welles, o realizador prodígio, que tinha carta-branca para fazer o que bem quisesse.

Para os que conhecem o filme de 1941, à medida que o filme avança, “Citizen Kane” e “Mank” começam a fundir-se e começamos a perceber como as peças se encaixam na mente do argumentista.

Como muitos escritores da época que se esforçavam por erguer a Writers Guild of America, Mank é anti-sistema, e na sua imersão nos meandros ricos de Hollywood, vai-se desiludindo com a promiscuidade e a cegueira obediente dos estúdios ao Partido Republicano.

Rodeado por figuras como William Randolph Hearst (Charles Dance) e Louis B. Mayer (Arliss Howard) da MGM, observa de perto a maquinação e a exploração desses magnatas para com os seus trabalhadores, pobres miseráveis famintos que durante a Grande Depressão acabariam por vender a integridade à propaganda. Estes fizeram parte ou acabaram mesmo por idealizar reels noticiosos falsos que viriam a influenciar a vitória do republicano Frank Merriam sobre o socialista Upton Sinclair, na campanha eleitoral da Califórnia em 1934.

Realista, Mank já tinha razões de sobra para se revoltar. Com a confidência e cumplicidade que mantém com Marion Davies (Amanda Seyfried, qual Betty Boop loura), amante/protegida de Hearst, e o suicídio do seu amigo Shelly Metcalf (Jamie McShane), a dor e a raiva ainda o consomem mais e todo o seu sentido de justiça e de denúncia é cravado nas folhas brancas da sua obra.

Filme irresistivelmente pessoal, pois Fincher filma um argumento de seu pai, sente-se a paixão e a obstinação sobre uma personagem como Mank, ele que se fustigou em álcool e jogo, mas nunca abdicou da sua honra, integridade e espírito de jornalista, acreditando ser um herói trágico no meio da devastação económica e da guerra. E claro, autor com direito a créditos na produção futura “Citizen Kane”.

Embora falhe o seu crescendo final, confuso entre a disputa de crédito com Welles e a magnânima batalha com Hearst, “Mank”, cheio de brilhantismo técnico e um olhar circular sobre Hollywood, será um dos favoritos aos galardões na próxima temporada.

Drama de visual arrebatador, apaixonante nos detalhes para os cinéfilos, curioso e revelador para os que não conhecem “Citizen Kane”, “Mank” é uma carta de amor e de denúncia à era dourada de Hollywood.


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