Da Eternidade: ironia cósmica

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Filme vencedor do Leão de Prata de Melhor Realizador no Festival de Veneza em 2019, “Da Eternidade” é uma manta de retalhos filmada com câmara fixa, enquadrando todas as cenas com a mesma escala e as mesmas cores. Tanto faz ser um pai a apertar os atacadores da sua filha como milhares de soldados a enfrentarem um nevão na Sibéria.

Este é o olhar de Roy Andersson, que baixa o seu ritmo cardíaco, suspira com melancolia e ri-se com transcendência e despretensão do coloquial, enquanto vê a vida passar e o sangue esvair-se.

É um existencialismo lívido que se arrasta pelos cenários de “Da Eternidade”, onde cenas do quotidiano banal são preenchidas com gotas de absurdo e inquietante confusão. Há momentos de dor, perda e devaneios, frustração, comiseração e agressividade; de lirismo, alegria e derrota, de tudo e do nada, da ocasião e da eternidade.

São vários episódios narrados por uma voz feminina que recorda instantâneos de um passado. Com um discurso lacónico, num tom prosaico que nos faz projectar e indagar se não terá mesmo innuendos irónicos, esta narradora faz-nos observar as perturbações, as crises pontuais dos indivíduos perdidos na vida, que é sempre abundante em estímulos, mas que nós tornamos ordinária.

Ou tão somente, deixa-nos a ver vida a discorrer, como a cena em que um casal bebe champanhe e nada parece ser relevante, até que a persistência no plano e na encenação nos despertam para as entrelinhas a descortinar.

Vi um homem com a mente noutro lugar“, “Vi uma mulher incapaz de sentir vergonha”, “Vi um homem que não confiava nos bancos e escondia as poupanças no colchão”, são algumas das frases que complementam suspensões no tempo. Que podem ou não acabar com um remate de humor sombrio, que podem ou não conectar-se com o que vem a seguir.

Pois este conjunto de quadros/composições construídas de raiz no estúdio do cineasta sueco, é uma colecção que edifica algo mais. Elevada com o estilo estético reconhecido de Andersson – figuras de tez pálida habitam cenários artificiais obsessivo-compulsivamente ordenados, ornamentados com tons pastel – este “todo” é uma existência de derrotados, almas perdidas que caminham paralelas entre si, falando com um ritmo arrastado, debitando as suas frustrações com o olhar fixo em nós.

É um padre que perdeu a fé; um idoso que se cruza com um velho amigo e é ignorado; Hitler dentro do bunker a deparar-se com a sua inevitabilidade; um casal que no topo de uma colina vê a sua cidade ao fundo e exclama que “Já é Setembro” …

São figuras que espelham o lado de cá da tela, onde também vivemos um universo amorfo e agridoce, belo e horrível, desgraçado e com graça ao mesmo tempo.

Mas apesar de Roy Andersson poetizar sobre a eternidade com versos depressivos, mesmo ele tem um interlúdio de êxtase, onde três raparigas dançam inesperadamente no meio da rua. Porquê? Porque precisamos de ser lembrados do que é viver. Para quê? Para a eternidade.


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