“Dark Waters – Verdade Envenenada”: Mark Ruffalo enfrenta sozinho conspiração de crime ambiental

⭐️⭐️⭐️

Um advogado tenaz batalha a corrupção corporativa, onde a indiferença e impunidade abafam os danos causados por substâncias químicas não regulamentadas da DuPont.

O actor e produtor Mark Ruffalo, defensor da conscientização para as alterações climáticas e o aumento das energias renováveis, quis prolongar a sua demanda ativista adaptando para o cinema o artigo de Nathaniel Rich “The Lawyer Who Became DuPont´s Worst Nightmare” [O advogado que se tornou o pior pesadelo da DuPont], publicado na revista do The New York Times. E para a cadeira de realizador, convidou Todd Haynes, autor conhecido por filmes como “Carol” e “Longe do Paraíso”, bem como “Seguro” e “Veneno”, onde metaforizou com a contaminação ambiental.

Determinados, compuseram “Dark Waters – Verdade Envenenada”, um drama/”thriller” efectivo na forma como enquadra o sistema legal, acentuando o esquema onde lobistas e políticos a soldo controlam a economia e a regulação, abalando a verdade da ciência e das provas supostamente irrefutáveis.

Narra a crónica do advogado Rob Bilott (Ruffalo), especializado na indústria química, habitual defensor das grandes companhias, que intrigado por um velho agricultor, descobre os perigos de um produto químico que há muito contamina a água de uma comunidade rural. Idóneo, muda de barricada e prepara-se para punir a gigante empresa DuPont.

Apoiando-se numa estrutura tradicional, ignorando o registo vibrante de outros trabalhos, o realizador Haynes assume-se como veículo sóbrio e direto da mensagem, num ciclo repetitivo de resiliência, onde a investigação prossegue e os confrontos surgem cada vez mais alto na hierarquia. Muscular, pontua a evolução do tempo e o desgaste de todas as partes envolvidas.

De um lado, Rob Bilott, que quanto mais se afunda nas águas turvas da pesquisa e nos efeitos nefastos e prolongados da substância, mais isolado fica. Do outro, a frieza da empresa DuPont, ciente de que o dinheiro e os esquemas de bastidores lhe trarão a vitória. No meio, a comunidade, perdida na dúvida sobre o seu futuro, já que a DuPont é a sua doença prolongada mas também a garantia de futuro económico.

Delineando a cronologia factual do processo legal, Haynes e Ruffalo diluem de forma acessível o léxico ambiental, químico e científico no discurso de Billot, enquanto ponderam sobre o impacto que o caso teve a nível pessoal, familiar e corporativo.

Enquanto a cadência assim se mantém, o argumento segue com uma força monolítica e impune, que nos deixa nervosos e assustados. Certas cenas, como a iminência de um carro explodir, são gratuitas e provocadoras de uma emoção desnecessária, resvalando para a paranóia, procurando carimbar o registo de “thriller” num filme que já seria empolgante só com os seus factos reveladores de perigos para a saúde pública.

O elenco de actores é voraz e pulsante, não estivesse ele repleto de activistas ambientais. Além de Ruffalo a segurar a carapaça estóica que cobre os tremores físicos e de persistência, Tim Robbins e Bill Pullman trazem vivacidade e respeito, enquanto Bill Camp, com a sua voz grave, ora ruminada ora furiosa, é um agitador. Já Anne Hathaway é um estranho erro de “casting”, num papel pouco desenvolvido onde não parece envelhecer e apenas servir, enquanto esposa do advogado, para banalizar o seu trabalho.

Dito isto, “Dark Waters” é tecnicamente bem executado, com Haynes e o diretor de fotogradia Edward Lachman a procurarem constantemente a dicotomia: contrapondo os sobretudos negros e as paisagens urbanas duras e rectilíneas com a textura rural e os coletes enlameados; usando planos gerais para indicar as grandes diferenças de altura entre alguns actores; “pintando” o filme de uma tez pálida azulada e os rostos de um laranja enfermo. Tudo para aumentar o isolamento de Rob Bilott e valorizarem a sua perserverança e consequente vitória.

Como filme dramático, “Dark Waters” é frio, previsível e esquemático, gladiando a impotência e insistência do indivíduo com a robustez e a influência do grupo corporativo. Mas baseado numa história verdadeira, como os alarmantes créditos finais fazem questão de nos relembrar, é urgente no seu alerta e um documento de ataque, pronto para a luta e a disseminação da mensagem a nível global.

“Dark Waters – Verdade Envenenada”: nos cinemas a 9 de janeiro.

Crítica: Daniel Antero


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