Dunkirk

Denso e dramático com a trilogia Dark Knight, Christopher Nolan granjeou fama e assaltou com Inception e Interstellar a disruptividade narrativa, aplicando o exercício da sua segunda longa-metragem “Memento”, onde usou a colisão de tempos e estrutura, com um suspense pulsante…atrasando ao máximo a resolução da história.

Apoiado pelo icónico compositor Hans Zimmer e o editor Lee Smith, e com o suporte dos melhores equipamentos IMAX, Nolan alcançou uma posição nevrálgica no mercado e um estatuto de “autor” no cinema comercial, que levou muitos a apelidá-lo “O” salvador do blockbuster.

Na sua nova película, a equipa e a fórmula estão vincadas… e com a aura manipulativa de Hitchcock, a mestria técnica de Kubrick e o narcisismo de Michael Bay, assistimos a um exercício frio e maquinal, ou um esplendor emocional, pujante e explosivo de um dos momentos mais marcantes da II Guerra Mundial?

Em três pontos de vista – terra, mar e ar, vemos dramatizado o sufoco dos eventos da Operação Dynamo, onde os ingleses, franceses e belgas foram encurralados pelo exército alemão, entre a aldeia e o mar da praia de Dunkirk. Procurando partir nos navios em direcção à pátria, os ingleses recebem o apoio dos barcos civis convocados por Churchill.

No mar, seguimos Mr. Dawson que salva um pobre náufrago. Pelo ar, Collins e Farrier são dois destemidos pilotos que vão fazendo frente aos ataques dos alemães. Em terra, seguimos Tommy e os aliados a que se vai juntando, tentando por tudo sobreviver.

Estas três vistas da sobrevivência cruzam-se de forma incessante, quebrando o tempo e cruzando-se nas acções, pois seguimos uma semana em terra – tempo que os ingleses esperam para serem evacuados; acompanhamos o mar durante um dia – a duração necessária para avançar de Inglaterra a França; e pelo ar, o espaço de uma hora – período para os pilotos ficarem sem combustível…tempos que irão convergir numa praia deserta, habilmente editados por Lee Smith e estruturados com inteligência pelo guião de Nolan, criando um multi-clímax de 105 minutos.

A verdade é que sem um vilão presente num rosto definido, a ameaça paira desde o início… ou não fosse o ataque sonoro de Hans Zimmer, cavalgante e intrusivo, preenchendo o vazio dos diálogos e acentuando a dor das pulsações.

E este é o problema de Nolan e da sua mestria. As camadas e as técnicas estão de tal forma lapidadas, que as suas obsessões transcendem a emoção de uma história. Um raide aéreo pode ser filmado de forma espectacular, mas temos de sentir empatia pelo piloto; a corrida de dois homens para entrar num navio que vai partir já por si só é enervante…não é preciso que Zimmer nos lembre disso, com o seu tique-taque imersivo, ora enervante ora irritante.

Por isso, à questão anteriormente explanada…assistimos a uma emoção que nos sufoca como nos thrillers de Hitchcok… com um esplendor de domínio técnico kubrickiano… mesmo sabendo da manipulação narcisista do realizador britânico, que muitas vezes parece que faz o salvamento sozinho.

Se esperarem por ver em casa, a emoção vai-se dissipar e a experiência “Dunkirk” vai-se perder. É um excelente filme para ser visto no cinema, pois em IMAX e no maior ecrã que encontrarem é que a sua virtude será devidamente alcançada.


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