“Farming”: um filme implacável e frustrante sobre o líder nigeriano de um gangue de skinheads brancos

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Um skinhead negro procura identidade e validação numa sociedade fragmentada através da violência.

SINOPSE: A história real de Enitan, um jovem rapaz nigeriano, enviado pelos seus pais para uma família britânica na esperança de lhe conseguirem proporcionar um futuro mais promissor. Ao invés, Enitan torna-se um líder temido gangue de skinheads brancos da Inglaterra dos anos 80.


Interpretando o seu pai, usando a sua casa de infância como cenário, integrando músicas suas como dispositivos para narrar os eventos do filme, o ator britânico Adewale Akinnuoye-Agbaje (da série “Lost” e “Esquadrão Suicida”) faz a sua estreia na realização com “Farming”, uma história catártica no seu processo de execução, bruta e algo sensacionalista na sua forma final.

Decorria a década de 1960 e em Inglaterra surgia no seio da comunidade nigeriana o “farming”, uma prática onde casais que tentavam estudar ou trabalhar para angariar dinheiro e mais tarde retornar à Nigéria, pagavam a famílias britânicas brancas para acolherem os seus filhos.

Adewale Akinnuoye-Agbaje foi um produto dessa geração e baseia o seu filme nas suas experiências de criança e adolescente, quando foi adotado por uma família branca de Essex, uma das cidades onde o sentimento anti-imigração era mais forte.

Enitan (Damson Idris) é o alter-ego de Adewale, um jovem que desenvolve uma crise de identidade fraturante, enquanto sofre micro-agressões racistas em casa, por parte de Ingrid, a sua mãe adotiva (Kate Beckinsale), e é alvo de “bullying” tortuoso na rua por um bando de skinheads.

Fechado no seu mundo, quase sempre mudo, descrente na sociedade, não tem onde se recolher. Nem mesmo quando é suportado e alertado pela professora Ms.Dapo (Gugu Mbatha-Raw) ou visita a terra-natal dos seus pais e volta de lá com mais do que cicatrizes psicológicas.

Até que algo o quebra e volta a unir, quando Levi (John Dalgleish), o líder dos “Tilbury Skins”, o pinta de branco com spray e lhe evoca uma memória traumática: em menino, esfregou-se com pó-talco para esconder o seu tom de pele. Ele queria ser branco, eles “querem-no” branco.

A partir daqui, Adewale Akinnuoye-Agbaje pauta a viagem inesperada de Enitan, onde este passa de vítima a mascote e de mascote a líder dos “Tilbury Skins”, numa rotina de sofrimento individual com pouco eco no prisma mais abrangente da sociedade.

Como Adewale tem mesmo “Farming” marcado na pele, não consegue ter distanciamento para tornar o seu filme em algo mais do que cenas de lutas, humilhações, tortura psicológica e física. Um ritmo de montagem inconsistente, a insistência na presença da estrela Kate Beckisanle e uma direção que relembram algumas telenovelas televisivas britânicas, mantêm este projeto superficial.

Bruto, não se concentra na psicologia distorcida do auto-desprezo de Enitan, para se focar na sua valentia. Sem voz, perde também a oportunidade de criar um paralelismo com o Brexit dos dias de hoje, gastando o seu tempo no sadismo de Levi, figura que representa a ideologia fascista, e nas palavras abusadoras de Ingrid, que denotam o racismo sistémico presente.

Entende-se que tipo de força de exorcização move este projeto íntimo, pessoal, que termina com a saída de Enitan daquela tribo prejudicial e avança por uma redentora evolução, terminando numa foto de Adewale a receber o diploma do curso de Direito das mãos de um membro da Família Real.

Enquanto narrativa de um homem, “Farming” é de ver para questionar esta fase da história social britânica e o crescimento de Enitan/Adewale. Mas como obra de um artista, fica aquém da sua premissa e gravidade.


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