Green Book é comfort food para os Óscares.

Green Book – Um Guia para a Vida

Estrelas: 4

Bronco, com manha de rua e punhos calejados, Tony Lip (Viggo Mortensen) sai do Cadillac DeVille de 1962 e olha a planície.

Um grupo de negros vai cultivando a terra e com a paragem deste carro azul turquesa no meio do nada, ficam a observar.

O que os espanta mais, não é este italiano perdido na seara…é a presença de um negro no banco de trás, com ar altivo e bem-parecido, imponente e delicado, amargurado e majestoso.

Don Shirley (Mahershala Ali) olha o grupo por momentos, perdendo-se na ideia retorcida e elitista do “american dream” e da sua própria identidade, para depois retomar a viagem entre New York e o Alabama, onde apresentará a sua música pelos estados mais racistas do sul da América.

Esta sequência é no seu silêncio, brilho e humanismo, a essência de Green Book, um conto de reconciliação racial, drama/road movie que também é uma comédia/buddy movie, entre duas figuras, antítese uma da outra.

De um lado, Tony, o condutor preconceituoso crescido nas ruas do Bronx, que atira para o lixo, copos tocados por lábios de raça negra.

Do outro, Don Shirley, um pianista sofisticado e intelectual, cheio de coragem para enfrentar o sul profundo, onde o seu talento será admirado, mas a sua cor não permitirá frequentar os mesmos restaurantes ou casas de banho que a sua audiência.

Enquanto acompanhamos os dois a saltarem de concerto em concerto, de estado em estado, de ofensa em ofensa, as várias situações em que se envolvem, crescem gradualmente de ironia. Levando até membros de grande estatuto a intercederem por eles, numa cena de grande injustiça.

No percurso entre as cidades, as suas conversas passam de tensas a picardias bem humoradas. Dentro do carro, que é uma personagem com direito próprio, a sua descoberta enquanto indivíduos e elementos de uma raça distinta, vai esbatendo e eliminando as suas diferenças: Don ensina dicção e entoação a Tony, Tony apresenta Lil Richard e fried chicken a Don, p.e.

Claro que é um filme fórmula, que por vezes nos faz rir pelo contraste do polido vs rude ou do intelectual vs street wise, procurando encher-nos a alma com o truque da amizade inesperada, estereotipando a corajosa dupla, e amaciando a verdadeira violência que existia no período Jim Crow e das “sundown laws”.

Baseado numa história verídica, o argumento é embelezado para as massas, e é elevado com as excelentes interpretações dos nossos passageiros. Se Mortensen tem um appeal cómico que te fará soltar gargalhadas inesperadas, enquanto lida com o conflito entre o seu espírito intolerante (para com os negros) e o seu grande coração (para com os seus); Mahershala Ali, para além de um fantástica interpretação física enquanto pianista, age sempre com ternura e dignidade, enterrando a sua raiva, enquanto procura o seu espaço num mundo que o alienou.

E por tal, se justificam as nomeações aos Óscares para Melhor Actor (Mortensen) e Melhor Actor Secundário (Ali), que suportam o filme do inesperado Peter Farrelly, realizador de Doidos por Mary e Doidos à Solta…que poderá trazer o galardão de Melhor Filme para casa.

ESTREIA: 24.01.2019


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