Homenzinhos

Homenzinhos” é o último trabalho de Ira Sachs. O realizador norte-americano em parceria no argumento com Mauricio Zacharias, abordam algo que é tão banal mas ao mesmo tempo tão embaraçoso, que na maioria das vezes optamos por escapar a publicamente o mencionar: as dificuldades monetárias e todo o dano causado por elas.

Sem truques ou efeitos especiais, Óscar Durán fotografa este filme como a realidade do dia a dia, como se estivéssemos presentes e os quadros fossem escolhidos por nós sem grande aproximações ou distâncias, sem grandes preocupações estéticas e com a cor de como as coisas são na vida.

O filme aborda as alterações que afetam uma zona ou bairro, que levam a que haja uma valorização dos imóveis e consequente subida de renda e outros bens e serviços, que afeta e dificulta a vida aos antigos moradores pondo em causa a sua permanência no local. Embora eu tenha gasto todos estes caracteres para definir gentrificação, não é aí que história se centra, é mais subtil e pessoal nos danos colaterais que advém dessa situação.

É para um desses bairros que Jake (Theo Taplitz) um jovem de 13 anos se muda, com os seus pais desde Manhattan para a casa em Brooklin, onde seu pai Brian Jardine (Greg Kinnear) cresceu e agora volta, após a ter herdado na consequência da morte de Max, o avô de Jake. Este ali vivia sozinho, afastado dos filhos e como que canalizava o seu carinho para Leonor Calvelli (Paulina García), uma costureira chilena que lhe alugava uma loja no rés do chão de sua casa.

Tony (Michael Barbieri) filho de Leonor e Jake, desde logo travam uma intensa amizade. No final desse verão, que Sachs salta temporalmente, deixando resquícios apenas em panorâmicas e “travellings” dos jovens a viajarem nas ruas de bicicleta e patins, tornando-se melhores amigos. Mesmo sendo de personalidades antagónicas, Jake sensível e reservado, Tony extrovertido e charmoso, os dois mantém-se inseparáveis.

Brian é um actor mediano e a sua carreira já teve melhores dias, as contas são pagas com o ordenado da sua mulher Kathy Jardine (Jennifer Ehle), uma psicoterapeuta. Como se isso não bastasse, tem a pressão da irmã Audrey (Talia Balsam) para que a renda da loja seja aumentada para valores de mercado actual. Tudo isto leva à disputa financeira entre os Jardine e Leonor, proporcionando “os danos colaterais” que afetam relação dos jovens.

Os dois jovens brilhantemente interpretados, alinham-se para lutar pela amizade, e contra o perigo do distanciamento, chegam mesmo a fazer votos de silêncio, com birras inocentes de quem não tem defesas para perceber que o que vai acontecer…é o que sempre acontece. Assim, a verdadeira ação ocorre ao redor das margens da história, onde as emoções cruas, reais, como raiva, culpa, desespero, amor e traição se acendem.

O nosso anseio é que o relacionamento de Jake e Tony possa resistir à tempestade que seus pais despertaram: um choque da necessidade financeira com as obrigações da amizade. Esse seria o tipo de final feliz que só acontece nos filmes.

Homenzinhos é uma história que não é trágica nem triunfal na forma como ela se resolve, mas sim uma que é satisfatoriamente verdadeira.


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