“Jojo Rabbit”: uma comédia satírica, inteligente e corajosa às custas de Hitler

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Desvendando as ideias tóxicas do anti-semitismo e da perseguição do “outro”, o realizador Taika Waititi faz uma poderosa declaração contra o ódio. Filme está nomeado para seis Óscares.

SINOPSE: Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, Jojo, um rapaz de 10 anos nazista, sonha em participar da Juventude Hitleriana e tem como amigo imaginário – Adolf Hitler. Um dia, a sua visão do mundo inverte-se quando descobre que a sua mãe está a esconder uma jovem judia, no sótão. Depois de várias tentativas frustradas para expulsá-la, o jovem rebelde começa a desenvolver empatia pela nova hóspede.

Nunca ultrapassando a fronteira para se tornar ofensivo ou diminuir a gravidade do Holocausto, Taika Waititi equilibra em “Jojo Rabbit” a fúria da sátira com solenidade fatalista. Com um humor muito próprio, ora ternurento e mundano, ora agressivo e absurdo, reduz a ideologia nazi à sua imbecilidade.

O principal impulso deste argumento é o caos disparatado e a estampa jocosa dos seus vilões: os alemães nazis são ignorantes imaturos e reina a idiotice criativa muito própria dos desenhos animados. Além disso, desconstrói clichés e a semântica, recorrendo a músicas como “I Want to Hold Your Hand” dos Beatles, cantada em alemão, ou piadas que envolvem pastores alemães. E usa e abusa de comportamentos espalhafatosos, subterfúgios e gags incessantes (a odiosa expressão “Heil Hitler” ganha uma dimensão simpatiquíssima).

Tudo unido, compõe uma paródia que compartilha o seu ADN com os Monty Python, “Moonrise Kingdom” (Wes Anderson), “O Grande Ditador” (Charlie Chaplin), “Os Produtores” (Mel Brooks) e até a mítica série televisiva “’Allo Allo”.

Rapidamente, esta farsa se transforma em ameaça e desastre, como vemos pelo extravagante capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), da Juventude Hitleriana, o oficial Deertz (Stephen Merchant), agente da Gestapo, e o petulante e imaginário Hitler (Taika Waititi) que, de um momento para o outro, passam de inofensivos a cruéis bestas que procuram a glória.

Estes são os heróis de Jojo (Roman Griffin Davis, numa das melhores interpretações infantis dos últimos anos), um menino de dez anos que absorve toda a informação debitada pela propaganda e está desesperado por provar a sua masculinidade e ser aceite pelos seus pares no campo de treino.

Felizmente, a sua ingenuidade é tão grande como o seu coração, e a influência de Rosie (Scarlett Johansson), a sua mãe anti-nazi, e de Elsa (Thomasin McKenzie), a adolescente judia que se esconde no sótão, fazem com que Jojo comece a ver para lá da névoa da propaganda.

Enquanto a personagem de Elsa representa a resiliência da humanidade, Rosie é a poesia e a imaginação que alimentam a ideia romântica de um mundo melhor. Dança e luta, vive intensamente. Numa das cenas mais comoventes deste filme, suja-se de cinzas para fazer uma barba e imita o pai ausente de Jojo, interpretando um diálogo que vai da fúria à ternura.

Percebemos que a resistência de Rosie tem fraturas e a crença de todos os dias é por si forjada. É o exemplo máximo da aura bucólica que exalta os prazeres da vida e procura emergir debaixo do formalismo e dos comportamentos cerimoniais. Isto sente-se por todo o filme, onde as cores são saturadas, os fatos elegantes e aprumados, os rostos maquilhados, as ruas incólumes. Todos se apresentam com brio e pompa. Seja para receberem o Führer ou para estarem bonitos no dia da sua morte.

Taika Waititi estica a corda iludindo-nos com humor, provocando-nos conforto, aludindo com esperança, para depois entrelaçar o embuste com a tragédia e tirar-nos o chão dos pés. Mel Brooks disse uma vez: “Se conseguires reduzir Hitler a algo risível, ganhas.” Waititi não esquece o custo dessa vitória. Nos seus filmes, as gargalhadas nunca são de graça.

“Jojo Rabbit”: nos cinemas a 23 de janeiro.

Crítica: Daniel Antero


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