“Judy”: Renée Zellweger brilha no ocaso da super-estrela Judy Garland

⭐️⭐️ Baseado na peça “End of the Rainbow” de Peter Quilter, “Judy” apresenta-nos Renée Zellweger como Judy Garland, a atriz de “O Feiticeiro de Oz” e “Assim Nasce uma Estrela”, já em modo descendente, dependente de substâncias, sem ofertas de trabalho e prestes a perder o alojamento que a abriga a si e aos seus filhos.

Quando o empresário Bernard Delfont (Michael Gambon) a convida a entreter os seus acérrimos fãs nos palcos de Londres, ela não tem outra escolha se não aceitar. Mas o que podia ser um trampolim para a reabilitação, rapidamente se encarrila na perdição normal: Garland chega atrasada aos ensaios e encontra-se alcoolizada nos concertos, testando a paciência de todos os que a rodeiam. A sua jovem assistente Rosalyn (Jessie Buckley) resiste até ao ponto de ruptura.

Intercalando este período da sua vida ocorrido em 1968, com cenas da sua infância e adolescência, quando era a coqueluche rebaixada e abusada pelos estúdios MGM e pelo produtor Louis B. Mayer, o realizador Rupert Goold explana e fundamenta os comportamentos erráticos, de autodestruição, da actriz imortalizada pela música “Over the Rainbow”.

Com cada “flashback”, vemos o seu tempo, mente e corpo a serem controlados por uma educação austera, onde os prazeres da vida foram removidos e substituídos por comprimidos. Aqui compreendemos a tragédia de uma criança vulnerável, tornada estrela e deixada depois à deriva até a sua luz se extinguir.

Mas não iria desaparecer sem estas semanas de gáudio e de desabamento, onde Garland ainda acredita atingir os seus últimos desejos: estar com os seus filhos, ser adorada e encontrar o verdadeiro amor. Mas a decepção com o rumo da sua vida de alto louvor e o desencanto pelas promessas vindas daqueles que a rodeiam, trazem outro desfecho.

E neste rol de emoções, Renée Zellweger coloca “Judy” e Judy Garland a níveis intensos de desgraça e memória com a sua interpretação.

Judy

Depois de um hiato de seis anos do mundo da representação, Zellweger oferece uma performance de canto, dança e colapsos, de mimese homenageante, mas não exaustiva, onde apoiada com excelente maquilhagem e penteados, mantém os seus próprios maneirismos e funde-os com os de Garland, de forma ternurenta, com carência, sanidade periclitante e um humor autodepreciativo.

Zellweger encanta mais quando está em palco: “I’ll Go My Way by Myself” e “Come Rain or Come Shine” são de tirar o fôlego, principalmente na sua voz quebrada e rouca… tendo o seu apogeu de redenção e adoração com “Over the Rainbow”.

Aqui, “Judy” termina como um drama de bastidores agradável, usando um truque barato de consolação para enaltecer um clímax hollywoodesco de final feliz. Renegando a toada sombria e tóxica dos momentos finais de Garland, opta por continuar a acreditar que existem muitas cores de esperança no fim do arco-íris.

“Judy”: nos cinemas a 10 de outubro.

Crítica: Daniel Antero


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