Liberdade: O valor da vida numa comédia anárquica e enervante.

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Uma cadeia de eventos entrelaça os dramas de vários indivíduos presos a restrições físicas e sócio económicas.

SINOPSE: Vic, um jovem desafortunado russo-americano, conduz uma carrinha de transporte de pessoas incapacitadas em Milwaukee. Já atrasado, num dia em que começam protestos, e à beira de ser despedido, concorda, relutantemente, em levar o avô e vários idosos russos a um funeral. Quando pára num bairro predominantemente afro-americano para ir buscar Tracy, uma jovem com esclerose lateral amiotrófica, o dia de Vic vai de mau a pior.

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Liberdade de Kirill Mikhanovsky é uma descida kafkiana a Millwaukee, onde seguimos um dia de Vic (Chris Galust), um condutor de uma carrinha de transporte, que se desdobra em complicações e soluções de última hora, para agradar a todos os seus clientes.

Vic sabe que eles dependem de si, pois com dificuldades físicas ou mentais, não teriam outra forma de chegar às suas entrevistas de empregos, concursos de talento ou festas na discoteca. Com bom coração, este procura atender a todos os pedidos, acabando ele próprio por criar um turbilhão de pequenos problemas à sua volta. E que ainda irá crescer, acumulando-se num caos cheio de ecos das comunidades imigrantes, tensões raciais e frustrações da classe trabalhadora.

De humor sombrio e frenético, Liberdade vive da tensão cómica de pequenos episódios que retratam tarefas e seus contratempos: Vic tem de carregar e descarregar cadeiras de rodas, apoiar idosos com quebras de açúcar ou impacientemente, aguardar que a sua mãe e o patrão se calem. Gradualmente, fica cada vez mais atrasado para o seu próximo compromisso e exasperado, mantém o seu chavão: “Estou a chegar, são só mais dez minutos”.

Claustrofóbica, a câmara irrequieta de Mikhanovsky capta a urgência e a imprevisibilidade, remetendo para a edição, a fluidez de discurso e a saturação cacofónica. Algo que te vai deixar num estado nervoso, mas onde a sensação de alívio chegará recompensada com gargalhadas.

Para ajudar, ou não, Dima (Maxim Stoyanov), um divertido fala-barato que vive nas margens da legalidade e decide seguir na carrinha com Vic, é o catalisador desses momentos, provocando ainda mais confusão e intensidade.

Mas estes dois, são os passageiros da carrinha que têm menos problemas. O que Mikhanovsky reforça, por comparação e sensibilidade, é que o conceito de viver com uma deficiência não significa uma qualidade de vida reduzida.

Embrenhados com a prisão do relógio, Vic e Dima, perdem a noção do panorama geral, enquanto que Tracy Holmes (a influencer Lauren Lolo Spencer, diagnosticada com esclerose lateral amiotrófica), os imigrantes russos a caminho de um funeral, ou um homem cego e obeso em cadeira de rodas, vivem o dia com amor e paixão aos pequenos momentos, aproveitando a liberdade que vão tendo.

Anárquico, enquanto agita as suas personagens nas curvas apertadas que carrinha faz, Liberdade não embeleza o seu realismo. Pois estas riem-se, sabendo que dramatizar não vale a pena. Não trará nada de novo para o dia de amanhã.


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