Liga da Justiça de Zack Snyder – Espectáculo e maturidade numa versão mais consistente que a desgarrada de Joss Whedon.

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Quatro horas de drama e fantasia séria e indulgente. E um regozijo de acção para os fãs hardcore de Zack Snyder.

SINOPSE: Alimentado pela sua fé restaurada na humanidade e inspirado pelo acto abnegado do Super-Homem, Bruce Wayne alista um novo aliado, Diana Prince, para enfrentar uma ameaça ainda maior. Juntos, Batman e Wonder Woman trabalham para recrutar uma equipa que enfrente este inimigo. Apesar da formação de uma liga de heróis sem precedentes — Batman, Wonder Woman, Aquaman, Cyborg e o Flash — pode ser demasiado tarde para salvar o planeta de um assalto de proporções catastróficas.


Aguerrido de uma facção entusiasta do universo das comics e graphic novels, Zack Snyder, realizador de 300 (adaptando a obra homónima de Frank Miller) e Watchmen (obra de culto de Alan Moore), tornou-se o paladino do universo cinematográfico da DC.

Escolhido para reunir os heróis incontornáveis da Liga da Justiça: Aquaman, Batman, Cyborg, Flash, Martian Manhunter, Superman, Wonder Woman e talvez Green Lantern, iniciou a saga com Man of Steel e prolongou-a com Batman V Superman. Dois filmes que embora tenham recebido reacções mistas, colocaram Snyder no patamar de “autor” aos olhos de fãs acérrimos que o idolatram.

Quando durante o desenvolvimento de Justice League (2017), Snyder teve de abandonar a produção por motivos trágicos, a Warner chamou Joss Whedon, realizador de Avengers, para terminar o projecto… que viria a ser um flop entre críticos e fãs.

A partir daí, a incógnita instalou-se e os seguidores do realizador, curiosos e sedentos, endeusaram Snyder, acreditando que uma versão mais completa, espectacular e singular do filme, tinha ficado perdida na sala de edição. A internet rebentou com as hashtags #SnyderCut e #ReleaseSnyderCut, e a pressão sobre a Warner surgiu de todos os lados. Até campanhas dos meios sociais e os actores principais atiçaram a ideia. Quatro anos depois e 70 milhões de dólares a mais, chega-nos agora a versão definitiva de Zack Snyder, daquela que seria a primeira parte da sua Liga da Justiça: um épico de super-heróis de 4 horas com estreia na HBO, a 18 de Março.

Recusando utilizar qualquer footage capturada por Joss Whedon, Snyder apresenta-nos então uma visão maximalista, onde como uma pintura viva de Alex Ross, cria uma profusão icónica para cada um dos super-heróis envolvidos.

Mas se a versão de Whedon era criticada pela falta de lógica e fundamentos nas acções de cada herói, esta nova versão também não acrescenta e avança. Simplesmente lateraliza. Dividindo a acção em sete partes, cada super-herói tem direito à sua história compactada, atravessando temas como filiação, luto e alienação, assumindo complexos paternais e linhagens traumáticas. O problema é que todas as personagens passam pelo mesmo! Já nos chegava o momento “Martha” de Batman V Superman…

Algumas sequências ainda expandem o universo, como quando assistimos a Wonder Woman (Gal Gadot) a descobrir o plano do Steppenwolf (Ciarán Hinds) e Darkseid (Ray Porter), ou ainda a relação entre Cyborg e as Motherboxes. Este último é até o único membro da Liga a beneficiar com este novo “cut”, obtendo mais background e um arco narrativo transformativo; mas a exposição interminável, indulgente, por vezes infantilizada, de acções e diálogos ocos, faz-nos querer fazer fast-forward até atingir uma cena de luta.

Porque aí, sim, está o cinema de Snyder: vinhetas musculadas, suspensas no tempo; slow-motions artsy sem sustentação narrativa; escolhas musicais muito particulares, com canções que roubam cenas e trazem vergonha alheia: “There is a Kingdom” de Nick Cave ou a cover de “Song to the Siren” de This Mortal Coil, por Rose Betts, são alguns dos exemplos; assinaturas musicais para cada personagem (destaque para o coro ridiculamente repetitivo sempre que Wonder Woman surge); e CGI escondido na obscuridade e algum gore digital. Tudo num “glorioso” aspect ratio quadrangular de 1.43:1!

Fãs de Snyder, regozijem. Liga da Justiça é tudo isto e muito mais, onde cada narrativa secundária tem o seu deus ex-machina pronto para activar o espectáculo.

Fãs da Liga da Justiça, talvez fiquem mais bem servidos com os desenhos animados Justice League Unlimited ou as fantásticas bandas desenhadas escritas por Grant Morrison, Mark Waid, Marv Wolfman, entre tantos outros. Porque esta saga é também um caldeirão de caprichos do argumentista Chris Terrio, que povoa as cenas de diálogos insuportáveis que forçam conexões, onde nem a argúcia espevitada de Flash ou a atitude metal do Aquaman nos retiram do tom sombrio, fúnebre e amargurado que Snyder imprime na história.

E falo em caprichos, porque no acto celebratório que é o facto desta versão existir, Snyder pede tudo o que estava no menú: Lois Lane (Amy Adams) e Martha Kent (Diane Lane), Vulko (Willem Dafoe) e Mera (Amber Heard), Commissioner Gordon (JK Simmons) e Alfred (Jeremy Irons), Queen Hypolitha (Connie Nielsen), Iris West (Kiersey Clemons), Silas Stone (Joe Morton), Martian Manhunter (Harry Lennix) e ainda Deathstroke (Joe Mangiello), Joker (Jared Leto) e Lex Luthor (Jesse Eisenberg) vivem nesta versão não cânon da Liga da Justiça, cheia de vias abertas para expandir narrativas.

Muitos deles reduzidos a dispositivos de exposição ou concentrados num epílogo vago e insistente, que talvez possa existir numa versão futurista, ou numa timeline alternativa, ou no “knightmare” de Batman. Não sabemos, mas compreendemos que esta liberdade de actos e excesso, é uma conta que Snyder teve para ajustar com os fãs e com as histórias que lhe ficaram por explorar.

Porque este filme é de Snyder, um acto de persistência e de amor para si e para os seus, para quem o seguiu e para quem por ele clamou: #ReleaseSnyderCut

HBO Portugal – 18 de Março


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