“Listen”: amor de combate e injustiça social na estreia multi-premiada de Ana Rocha de Sousa

⭐️⭐️⭐️

Este é cinema que apela e se compromete, onde o título é já uma declaração de punho cerrado nas suas intenções.

SINOPSE: Nos subúrbios de Londres, Bela e Jota enfrentam sérias dificuldades quando os “serviços sociais” levantam suspeitas sobre a segurança dos seus três filhos. A surdez da filha de 7 anos desencadeia um processo no sistema que parece não ter fim. Tudo se complica com o passar do tempo.


Listen” é a estreia nas longas-metragens da realizadora Ana Rocha de Sousa, multi-premiada em Veneza pelo seu nervo implacável na denúncia. Condensado em 73 minutos, crú e despojado de artifícios, descreve o cenário doloroso com que uma família portuguesa a viver no Reino Unido se depara quando tem de enfrentar a intransigência burocrática do sistema social.

O título é para nos chamar a atenção a nós, espectadores, mas também se refere à inflexibilidade surda dos serviços sociais e à surdez da filha Lu, característica que irá despoletar um escalar de gravidade que nos enerva e colocará a família em estado de emergência, em frente a uma porta sem retorno.

Com punho cerrado e voz ativista, Ana Rocha de Sousa avança contra sistema cruel, onde a adoção forçada de crianças desmembra núcleos familiares sem lhes dar oportunidade de explicação ou defesa, pois tomam como ponto de análise primordial a situação financeira e o contexto social, sem nunca considerarem o amor dos pais ou as vontades das próprias crianças envolvidas.

E pior, após as crianças serem colocadas em famílias de acolhimento, nos termos da lei britânica, esta decisão não pode ser invertida. Mas, como Ana Rocha de Sousa nos quer fazer “ouvir”, pode ser combatida.

Pelo ponto de vista de Lu (Maisie Sly), que vê o mundo pela lente de uma máquina fotográfica de cartão, Ana Rocha de Sousa e o diretor de fotografia Hatti Beanland ainda pintam uma certa poesia. Atenuam as condições em que a família vive, e em conjunto com os desenhos que o pai Jota faz dos seus filhos e de Bela, a realizadora evoca que há mais do que a pobreza e a luta constante dos seus pais. Mas como a lente de Lu, esta poesia e lirismo em breve se irão quebrar.

A cineasta não romantiza a pobreza e adota um tom sério, firme e directo para retratar as dificuldades da classe trabalhadora e o seu envolvimento com as instituições sociais.

Seguimos então Jota (Rúben Garcia) e Bela (Lúcia Moniz) a irem à luta, a desgastarem-se e a enfrentarem a depressão, depois de verem os seus três filhos lhes serem arrancados das mãos, numa sequência brutal e doentiamente dolorosa, que não deixará ninguém indiferente.

Mas o maior sentido de impotência e raiva ainda está para vir, pois quando nas instalações dos serviços sociais a família se reúne por breves instantes, é obrigada a comunicar apenas em inglês. Português não é opção, língua gestual nem pensar. A família vê-se em ruptura, passando a agir com um único objetivo: reunirem-se e seguirem juntos pelo corredor que dá à porta de emergência, com destino a Portugal.

Seco e desconfortável, urgente e astuto, “Listen” coloca-nos em estado de alerta e obriga-nos a tomar partido entre estas várias camadas do que é ouvir e ser-se ou não ouvido.


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