“Luz da Minha Vida”: Casey Affleck faz emotiva aventura de amor em sociedade futurista destruída

⭐️⭐️⭐️⭐️ Casey Affleck escreve, realiza e protagoniza este drama de sobrevivência com sinceridade, emoção e intimismo.

O mundo é distópico e a sociedade foi quebrada por uma epidemia que atacou todas as mulheres. Com a sobrevivência do género feminino em risco, a moralidade entre os homens vai-se desvanecendo e a confiança entre si é remota e perigosa. Procurando proteger a sua filha Rag (Anna Pniowsky) a todo o custo, Pai (Casey Affleck), abandonou a sua casa há dez anos, fugindo para a floresta, mantendo-a escondida dos homens bons e maus.

Esta´é a premissa de “Luz Da Minha Vida”, que começa no interior de uma tenda, onde Pai improvisa uma história sobre duas raposas e o seu engenho para sobreviver a uma calamidade. Respondendo a todas as exigências e questões de Rag, que pretende tudo especificado e coerente, rapidamente percebemos que Pai fala deles próprios e que esta narrativa será a base a que Rag se irá agarrar para se superar e crescer.

São 12 minutos de carinho, amor e cumplicidade, que mostram a maturidade e inteligência da actriz Anna Pniowsky, a profundidade e emoção única de se ser pai, no olhar de Casey Affleck, e o arco narrativo que estamos prestes a acompanhar.

Com várias rotinas estabelecidas entre si, que vão desde a identificação de lugares seguros, comportamentos de fuga quando o pai clama “alerta vermelho”, idas à cidade em busca de mantimentos, Pai procura sempre manter Rag crente e vivaça, discutindo lições de vida, partilhando os valores das histórias por eles inventadas, fortalecendo a ligação e as noções de abrigo e de perigo. Porque Rag tem sempre de se passar por Alex, um rapaz de 11 anos.

Casey Affleck escreve, realiza e protagoniza este drama de sobrevivência com sinceridade, emoção e intimismo. A representação do vencedor de um Óscar por “Manchester by the Sea” é o catalisador da nossa aflição para com Rag: quanto mais demonstra o seu amor por ela, mais nós ansiamos.

Já como realizador, colocando a câmara no papel de observador, sem movimentos ou artifícios, entrega-nos uma quietude contemplativa. Por vezes impotente, pois a ameaça paira perto, atrás das árvores, dentro das casas que parecem inabitadas, sob a calma antes da tempestade. Noutras vezes, esperançosa, onde vemos o horizonte apontar o destino e manter a força e o alento presente. Dele, que busca a proteção para a filha enquanto relembra a esposa (Elisabeth Moss) e medita sobre a independência a capacidade de sobrevivência da sua pequena “raposa”.

“A Estrada”, “Os Filhos do Homem” ou o mais recente “Leave No Trace” (inédito em Portugal) são filmes que nos vêm à memória, indicando que o que Affleck procura já encontrámos há algum tempo no cinema. Mas a relação pai-filha, a ansiedade e inquietude, respeito, decência e humanidade que aqui transparecem, valem a repetição da viagem, desta “aventura de amor”.

“Luz da Minha Vida”: nos cinemas a 7 de novembro.

Crítica: Daniel Antero


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