“Malcolm & Marie”: Amor exaustivo

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Malcolm & Marie” de Sam Levinson é um filme exasperante, com emoções ao rubro e suspiros de desalento. Este alto contraste alinha-se com a fotografia a preto e branco de Marcell Rév para um drama pouco recompensador onde uma ilusão de auto-consciência nos alerta, confunde e cansa.

John David Washington é Malcolm, um cineasta com carisma a rodos, que age de forma abusiva para com a frustrada e sarcástica Marie, a sua musa apaixonada, interpretada com uma multi-camada de sensações por uma intensa Zendaya.

Ao chegarem a casa após a estreia do novo filme de Malcolm, ambos encetam uma longa discussão, iniciada pelo facto do realizador não ter agradecido a Marie no seu discurso de abertura – logo a ela, inspiração clara e evidente de Malcolm na construção da sua personagem principal. Entre confissões cruéis e golpes mesquinhos, digerem o estado da sua união, onde o narcisismo e arrogância de Malcolm vivem com o amor terreno de Marie, que se sente constantemente negligenciada.

São 100 minutos de argumentação calculada, onde Levinson nos exige paciência sobre o seu próprio deleite e regozijo com os monólogos das personagens e os beats do guião. Pois enquanto nos alinhamos e simpatizamos ora com Malcolm, ora com Marie, percebemos que estes não são mais do que dispositivos narrativos superficiais usados por Levinson para veicular uma discussão sobre os limites da análise cinematográfica, da avaliação da identidade e da intenção de um autor.

No seu lado da discussão, Malcolm está mais preocupado na forma como os críticos da Indiewire ou do LA Times (Levinson a mandar uma boca a quem criticou negativamente o seu Assassination Nation?) irão absorver as emoções do seu filme e canalizar para uma crítica de julgamentos rebuscados, assentes em ideias progressivas com foco mais em política do que na arte. Do outro lado, Marie mantém a discussão num campo mais íntimo, desmontando ou desvalorizando as ideias vociferadas do seu parceiro, erguendo o seu valor pessoal e a sua influência no “talento” de Malcolm.

Cabe-nos a nós perceber com quem Levinson mais se assemelha, dado que “Malcolm & Marie” encontra-se sempre num exercício de auto-reflexão e auto-comentário, deixando-nos à deriva e exaustos perante a verborreia woke, millenial, o egocentrismo e a mesquinhez das personagens e a meta-abordagem circular de Levinson.

E se a intenção de Levinson é mesmo essa, colocar-nos sob o escrutínio de Malcolm, que diz que o crítico só pode avaliar a forma, a técnica e a estética de um projecto cinematográfico, a verdade de Marie é que com esta atitude, ele “vai começar a fazer filmes falsos sobre pessoas falsas com emoções falsas”. Pois então…


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