“Midsommar – O Ritual”: um festival de horror arcaico e psicadélico a não perder

⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️Ari Aster, o realizador do aclamado “Hereditário”, traz-nos um filme macabro, alucinatório, de contornos viscerais e provocadores.

Christian e Dani são um jovem casal com uma relação quase a desmoronar. O luto e angústia mantêm-nos juntos após uma tragédia familiar se ter abatido sobre Dani e quando o grupo de amigos de Christian os convida para um festival de verão único, que ocorre a cada 90 anos, ela vê uma oportunidade de regeneração.

Ao chegarem à aldeia ancestral de Hårga, na Suécia, são logo envolvidos num rito de purificação, floral e iluminado. Danças tradicionais, refeições em comunidade, uniformes de linho branco, símbolos rúnicos e cantos folclóricos enchem o espírito do grupo americano de curiosidade. Mas o que começa com uma idílica aventura num paraíso pastoral, rapidamente toma um rumo sinistro, enervante e perigoso, aumentando a separação entre o casal.

Reunindo elementos de vários quadrantes, Ari Aster cria um tratado antropológico com “Midsommar”, onde história, mitologia, tradições, linguagem fictícia (Affekt) e um alfabeto rúnico, edificam uma tribo que se rege pelo livro sagrado do Ruby Radr, um compêndio de profecias esotéricas. Só que nem tudo é bucólico e outras cerimónias mais nefastas também fazem parte dos seus costumes… como métodos de torturas vikings.

No centro deste universo pagão, Aster coloca a actriz Florence Pugh como veículo de absorção do legado cultural, onde, enquanto Dani, se afasta das suas raízes e da interpretação cristã do luto, para ser elevada pelas celebrações arcaicas e integrada numa nova família, como a sua matriarca. Projetando os seus novos sentimentos, outrora reprimidos pela dor, afasta-se de quem se prende e tem a sua catarse.

Complementando a energia da actriz inglesa, a banda sonora de The Haxan Cloack é dissonante e atonal, e consegue, através de instrumentos nórdicos e drones instigantes, transportar-nos para um certo psicadelismo horrífico. E é este o grande objectivo de Ari Aster: mais do que criar empatia com as personagens, são várias as vezes (até reforçadas por efeitos especiais), que as cenas são distorcidas e compostas para nos criar náusea e desorientação. Os céus são brilhantes, a terra verdejante, os templos de cores garridas e as belas coroas de flores no topo da cabeça rodopiam até cair.

Denso, repleto de elementos ominosos e easter eggs ocultos, “Midsommar” é um filme estridentemente iluminado onde a luz amplifica o que não queremos ver. O que poderia estar escondido está, afinal, mesmo à nossa frente. Nós é que optámos por não acreditar.

“Midsommar”: nos cinemas a 26 de setembro.

Crítica: Daniel Antero


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