Monos: Comandos adolescentes vivem uma experiência anárquica e imprevisível

⭐️⭐️⭐️⭐️ Hipnose de visual febril, onde a neblina da selva e das nuvens esconde oito figuras, enquanto estas descobrem o seu coração de trevas.

A Cinema Bold decidiu antecipar as suas estreias cinematográficas e criar a campanha Bold X6 — Ainda Não Viste Tudo. São seis filmes disponibilizados directamente nas plataformas de vídeo nacionais, para expandir os horizontes no meio desta pandemia. A primeira película desta iniciativa é Monos, filme de Alejandro Landes.

Lobo, Perro, Leidi, Sueca, Patagrande, Bum Bum, Pitufo e Rambo fazem parte do exército “Organização”. Eles formam o esquadrão Monos e são responsáveis por uma vaca leiteira e pela refém americana “Doutora”. O seu único contacto com o mundo exterior é o rádio, ou o superior que aparece irregularmente, pronto para os subjugar e arengar. Mas nunca revelando informações suficientes que revelem as razões e as operações que vão ocorrendo e afectam a presença deles naquele local inóspito.

Alegoria poética, “Monos” é elevado a território épico pela obra do cinematógrafo Jasper Wolf: majestosas panorâmicas com nuvens a serem perfuradas por cumes de montanhas surgem em justaposição com grandes planos de rostos cobertos de lama dos nossos soldados. Ferozes no olhar são minúsculos corpos no meio da natureza que os irá abafar, física e mentalmente.

Sensorial e corpóreo, em Monos o contexto sociopolítico da guerrilha tem pouco lugar. O que interessa é a exaustão do corpo dos seus soldados e da refém, a alimentação das necessidades primitivas e a forma como a bússola moral de cada um se irá quebrar. Aí veremos o crescimento da maldade dentro de quem pouco mais conhece do que disciplina militar, brutalidade e sofreguidão pela anarquia da vida.

Como o Senhor das Moscas (William Golding) nos ensinou, os resultados de uma sociedade gerida por crianças, têm tendência a ser caóticos. Parecem aterrorizados por aquela figura que surge da bruma, mas quando este as abandona e são deixados ao sabor do vento, a experimentação sexual, drogas e uso das armas como brinquedos, tira-lhes a candura e o medo da retina. Quando a vaca morre e a prisioneira foge, a malícia, a crueldade e o sadismo acabam por ocupar aquele lugar no olhar.

Com ecos de Aguirre – Wrath of God, Pixote e Apocalipse Now, o filme de Alejandro Landes tornar-se-á alucinação, pesadelo e sobrevivência.


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