“O Príncipe Volta a Nova Iorque”: regresso de Eddie Murphy celebra e recicla demasiado o primeiro filme

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Quase pulsação a pulsação, a sequela é a inversão espelhada do original, onde a revisitação nostálgica nem sempre atinge o seu sucesso humorístico.

SINOPSE: Akeem e Semmi estão de volta! Com a ação a desenrolar-se na luxuosa e majestosa nação de Zamunda, o recém-coroado rei Akeem (Eddie Murphy) e o seu leal confidente Semmi (Arsenio Hall) embarcam numa nova aventura hilariante que os faz atravessar o globo, desde a sua grande nação africana até ao bairro de Queens, em Nova Iorque, onde tudo começou.


Quando Príncipe Akeem (Eddie Murphy) chegou à América em 1988 e descobriu um mundo de consumismo, liberdade e amor, a comédia ganhou uma nova estrela.

Um Príncipe em Nova Iorque”, de John Landis, tornou-se uma referência vibrante de citações e “set-pieces” ciclicamente recicladas, influenciando as gerações seguintes de comediantes e reforçando ainda mais o estatuto de Eddie Murphy.

Com o apoio de Arsenio Hall, ambos criaram caricaturas politicamente incorretas cheias de vida, que vibraram em microcosmos próprios (a barbearia, a igreja gospel, a banda soul), com o dom de enaltecer uma história previsível que vivia do romance.

Para além disso, o reino de Zamunda, onde se celebrava a cultura negra, foi de certa forma pioneiro para o que agora se exulta num filme como “Black Panther” e o afro-futurismo de Wakanda.

Passados 33 anos e numa época onde o humor é de trato sensível e a linha sobre o que é considerado ofensivo é muito ténue, estávamos curiosos com o que a dupla nos iria presentear nesta sequela. Pois bem, jogaram pelo seguro.

O Príncipe Volta a Nova Iorque” é sequela, “remake”, paródia de ecos nostálgicos, que evoca o filme original quase pulsação a pulsação, atualizando-o com mudanças geracionais e de género, mas ignorando o seu verdadeiro valor.

Apesar da evolução, Zamunda mantém-se patriarcal e nem mesmo a mentalidade progressiva do Príncipe Akeem parece ter tido força para mudar isso. Sob a alçada do Rei Joffer (James Earl Jones, que com 90 anos, tem aqui uma eulogia festiva demasiado meta para ignorarmos), as três filhas de Akeem, Meeka (KiKi Layne), Omma (Bella Murphy) e Tinashe (Akiley Love), não terão direito ao trono.

Podia-se achar que esta nova comédia pudesse enveredar por uma celebração das jovens negras e potenciar a mudança numa nação tradicional, mas os argumentistas preferiram reviver o princípio do original e com os toques do xamã Baba (Arsenio Hall, irreconhecível), desencantaram um filho bastardo (Jermaine Fowler), herdeiro legítimo ao ceptro real.

A partir daí, “O Príncipe Volta a Nova Iorque” é um desfile festivo exuberante (cortesia de Ruth E.Carters, vencedora do Óscar pelo Guarda Roupa de “Black Panther”) onde se revive o filme original através de Lisa (Shari Headley), dos alter-egos de Murphy e Hall como os barbeiros de Queens e o foleiro cantor de soul Randy Watson, das aparições musicais de Salt N Pepa, En Vogue e Gladys Knight; e ainda com o apoio de figuras novas como o Tio Reem (Tracy Morgan), Mary Junson (Leslie Jones) e o General Izzi (Wesley Snipes em grande forma, cheio de “swag”, loucura e piada).

Disponível na Amazon Prime Video, “O Príncipe Volta a Nova Iorque” é um filme que continua o ciclo e celebra o legado de modo confortável e nostálgico. Só que se apoiou demasiado nisso para ter piada.


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