“O Rei de Staten Island”: Comédia semi-autobiográfica em busca de propósito

⭐️⭐️⭐️ Debaixo de uma carapaça, Pete Davidson encontra graça na sua própria dor, enquanto revive a sua emancipação perturbada.

SINOPSE: Scott é um caso típico de “síndrome de Peter Pan” desde a morte do seu pai, bombeiro, quando tinha 7 anos. Agora, com 20 e tal anos, e tendo alcançado pouco ou nada, ele tem o, aparentemente inalcançável, sonho de se tornar tatuador. A sua ambiciosa irmã mais nova vai para a Universidade,mas Scott continua a viver com a sua exausta mãe, enfermeira nos Cuidados Intensivos, passando os seus dias a fumar erva, nas ruas com os amigos e em encontros secretos com Kelsey, sua amiga de infância. Quando a sua mãe começa a namorar com Ray, um bombeiro fala-barato, este relacionamento irá desencadear uma cadeia de acontecimentos que forçarão Scott a enfrentar a sua dor e andar para a frente com a vida.


Pete Davidson, estrela do “Saturday Night Live”, e Judd Apatow, realizador cativante no mundo da comédia, unem-se para uma abordagem mais comovente e traumática que o habitual, mas sem deixar o humor e as consequências da irresponsabilidade de lado.

“O Rei de Staten Island” é co-escrito entre os dois e Dave Sirus, outro membro habitual do “SNL”, e é em parte baseado na vida de Davidson, que demorou a amadurecer enquanto cresceu com a ausência do pai, antigo bombeiro, tragicamente desaparecido no 11 de setembro.

O Rei de Staten Island

Davidson é Scott, um adulto de 24 anos com déficit de atenção, doença de Crohn, humor abrasivo como defesa para esconder os seus sentimentos reais e uma ideia rocambolesca de criar um restaurante onde se pode comer e fazer tatuagens. Vive com a mãe (Marisa Tomei) e a falta de figura paternal retirou-lhe qualquer vontade de ter propósito para a vida.

É um lugar habitual na obra de Apatow: fazer os seus adultos tardios desenvolverem-se desde o seu refúgio/quarto/”man cave”/etc, até à emancipação e maturação. Mas se noutros filmes o humor físico prevalecia para a catarse, aqui é o traumático.

Ao ponto de na primeira cena do filme, assistirmos a Scott fechar os olhos e colocar o seu destino no alinhamento do carro que conduz. Mas se esta cena nos poderia indicar um argumento com uma vertente mais depressiva, não podemos esquecer as origens de Davidson e Apatow.

Estes optam por não explorar a componente subversiva e negra da saúde mental de Scott e diluem-na na sua máscara obstinada e nos seus eventos escapistas. E isso cria momentos hilariantes, onde o caminho para a maturação passa pela destruição da carapaça irascível, dura para quem o enfrenta na sua “não-conquista” do mundo.

Para isso, uma série de sketches organizam-se num percurso de gags improvisados e diálogos hilariantes, onde vale a escrita dos dois autores para jogar com a imaturidade de Scott, o seu comportamento insensível e os insultos metralhados.

A mãe, (Marisa Tomei), o namorado da mãe (Bill Burr) e o capitão da brigada de bombeiros (Steve Buscemi) são alguns dos alvos presentes, como figuras de educação e guias de aprendizagem emocional. São as personagens que mais criticam e afectam Scott, mas serão eles a ensiná-lo a baixar a guarda e dar rumo à sua cadência desorientada.

E são também eles, que com capacidade dramática, gozo e humanismo, fazem prevalecer sólidas e balanceadas as extensas 2h16min deste filme, fazendo-nos até ambicionar uma série televisiva que pudesse dissecar este mundo de relações. Pois se no final, sentimos que queríamos passar mais tempo a curar-nos e a curar estas personagens, Apatow e Davidson conseguiram dar ao Rei de Staten Island o seu propósito.


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