O Sacrifício de um Cervo Sagrado

A caminho do final de “O Sacrifício de um Cervo Sagrado” de Yorgos Lanthimos, aprendemos que a filha da nossa personagem principal escreveu um ensaio  sobre a tragédia de Iphigenia. Conta o mito de Agamemnon, o líder grego que enfrenta um castigo de Artemis, a deusa da caça, por lhe ter morto um cervo sagrado. A única forma de se livrar da maldição, é sacrificando a sua própria filha, Iphigenia.

Collin Farrell e Barry Keoghan

Steven (Collin Farrell) é um cardiologista casado, com dois filhos, que fala casualmente com um adolescente perturbado(r) (fantástico casting de Barry Keoghan). A nossa mente vagueia durante os seus encontros, indagando sobre a real natureza desta relação, arrepiada com a falta de sentimento nas vozes monocórdicas, que parecem querer explodir a verdade.

Revelar demais estragaria a experiência do filme, vencer a primeira parte deste é a primeira prova de fogo.

Como os quatro estágios de uma maldição que paira no filme, também nós ficamos durante 50 minutos  à mercê de Yorgos, como que paralisados com os seus diálogos e gestos frios e doentios,,…até que, de um só fôlego, o adolescente Martin cospe a sua intenção para com Steven… obrigando-o a si e à sua esposa a uma escolha… obrigando-nos a engolir o que não queríamos, a sentir o chão resvalar-nos dos pés, e a ver com olhos sangrados, a decadência de uma família…até ao último estágio.

A quantidade de vezes que dei por mim, numa posição desconfortável na cadeira, de rosto de lado, com algum espanto e receio, é a razão para ver Colin Farrell e Nicole Kidman presos na mecânica rigorosa de Yorgos Lanthimos.

Somos levados na sua manipulação através da banda sonora dissonante opressiva, com refrões do compositor Ligeti, vagueando pelos corredores de um hospital e pela casa da família, em travellings picados que nos colocam na visão de Deus.

Partilhamos o papel de sofredores de um mal, impotentes como Iphigenia… e somos Steven/Agamemnon, armados em Deus, brincando com o coração de outros, desprevenidos para a ira  de um adolescente, que castiga quem lhe tirou o que mais tinha de sagrado.

Um filme de horror psicológico, com ecos de Lars Von Trier e Michael Haneke, que te transporta no absurdo, até te perderes num pesadelo gótico e perverso.

ESTREIA: 04/01/17


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