“O Tempo Contigo”: animé deslumbrante está cheio de romance e inspiração sobrenatural

⭐️⭐️⭐️

Com um realismo visual e extravagância emocionante, o japonês Makoto Shinkai traça mais uma história de amor trágico de grande beleza.

SINOPSE: Um adolescente que decide fugir para Tóquio, onde faz amizade com uma rapariga que parece ser capaz de manipular o tempo. Juntos vão viver uma aventura inesperada, enfrentando as alterações climáticas com os poderes da “filha do tempo”.

ativante e ousado, “O Tempo Contigo” é um animé sobre amor em tempos de catástrofe. Rodeado de contornos mágicos, a nova obsessão de Makoto Shinkai é também uma fantasia sobrenatural que eleva a humanidade ao divino, dando-lhe controlo para parar a crise climática que abala a cidade de Tóquio.

É nas mãos místicas de Hina (Nana Mori) que se encontra esse poder. Ela consegue invocar raios de sol com oração, abrindo o céu por alguns momentos. A seu lado, Hodaka (Kotaro Daigo), um adolescente que foge para Tóquio em busca de uma maneira de viver, apoia-a no seu negócio barato. Vendem guarida e benção, parando a chuva por momentos, partilhando a luz preciosa do sol aos habitantes. Lado a lado vão descobrindo o amor e como se comportar na vida adulta.

Romântico e fantasioso, este novo filme do realizador que nos apresentou o aclamado “Your Name” (inédito em Portugal) tem uma riqueza visual de tal ordem que parece querer rivalizar com o Studio Ghibli.

Cenários de filigrana, quase fotorrealistas, são resultado do olhar obsessivo e extravagante de Shinkai, que consegue compor a cidade de Tóquio com arte e fascínio, sem esquecer detalhes de um podre submundo. A informação visual chega-nos a um ritmo torrencial, com certo ânimo ingénuo, como que querendo sair forçosamente da etiqueta do urbano depressivo.

Passamos por cruzamentos com luzes de néon, encantamos-nos com o fogo de artifício, encadeamos-nos com os vidros dos edifícios. Observamos o mundo pelos ecrãs de smartphone e os rostos nos vidros das máquinas de vendas. Tudo revolve à volta de brilhos e reflexos, com a chuva a correr impiedosamente pela paisagem urbana, cortada por raios de luz, criando uma aura celestial.

Mas ainda falta algo para conseguir ombrear com o estúdio japonês fundado por Hayao Miyazaki e Isao Takahata: este animé não tem no seu horizonte uma narrativa completamente ensolarada.

Com saltos cronológicos, sequências muito curtas e complicações narrativas, Shinkai raramente aprofunda uma personagem, responde a questões ou mantém o ritmo do filme bem balanceado entre o melodrama e a momentos de maior leveza.

De agenda bem vincada, ele está mais decidido em estabelecer tanto o seu estilo como o seu universo: “cameos” de Taki e Mitsuha, personagens principais de “Your Name” comprovam que os seus filmes ocorrem na mesma linha temporal… embora nem sempre saibamos qual.

Tudo serve o caminho apressado para a apoteose dos seus argumentos: um final grandioso. Neste caso, arrojadamente agridoce: Shinkai opta por criar um ideal esperançoso para um amor, mantendo-se no campo metafórico e espiritual, enquanto expõe as ansiedades sobre o aquecimento global que ameaçam as gerações futuras. Para Hina e Hodaka conseguirem uma solução permanente para a cidade de Tóquio, um grande sacrifício terá de ocorrer…

“O Tempo Contigo”: nos cinemas a 20 de fevereiro.

Crítica: Daniel Antero


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