On The Rocks: filhinha do papá?

⭐️⭐️⭐️

A realizadora Sofia Coppola já timbrou o seu nome próprio na tela, com filmes profundos como “The Virgin Suicides” (1999) e outros mais atrevidos como Marie Antoinette (2006). Mas o seu apelido terá sempre uma identificação icónica, um termo de comparação descabido, uma referência que lhe tanto deve ter trazido fôlego como fraqueza ao longo da carreira.

O seu novo filme traz consigo essa camada autobiográfica, projectada numa relação pai/filha (Bill Murray/Rashida Jones) que explora a influência que a paternidade tem na identidade de uma mulher e como os momentos de maior fragilidade são impactados por aqueles que nos educaram desde cedo.

Laura (Rashida Jones), uma escritora com bloqueio criativo, vive em Nova Iorque com o seu marido Dean (Marlon Wayans), num casamento que ela acredita estar a desmoronar-se. Perdida na rotina doméstica e focada no dia-a-dia das suas filhas, tem dificuldade em assimilar a visão total do que a rodeia. Quando os seus receios aumentam e passa a acreditar que Dean tem um caso extra-conjugal, Laura confidencia com o seu pai Felix (Bill Murray).

Negociante de arte, bon-vivant, filho de outra era, Felix logo assume que sim: Dean está a traí-la, porque é isso o que os homens fazem, diz; insistindo para que entrem em modo de espionagem e sigam o seu genro pelas ruas de Nova Iorque, a fim de comprovar a “verdade”.

Aqui entra o charme e élan de Bill Murray. O chauvinismo na boca deste veterano ator soará sempre galante e inofensivo, espirituoso e sardónico. Onde podia haver ofensa, há brincadeira, onde um conjunto de comportamentos de tempos longínquos criam um choque geracional, dá-se um olhar divertido sobre anseios amorosos e diferenças entre os sexos.

O problema é que o carinho e a preocupação deste velho encantador vêm de um lugar egocêntrico e egoísta, onde ainda crente nos seus ideais antiquados, manipula o verdadeiro amor da sua vida, a sua filha, sem ter noção do quanto a afecta negativamente.

Sofia Coppola e a atriz Rashida Jones, também ela filha de nomes famosos: o pai é o músico Quincy Jones e a mãe, a actriz Peggy Lipton; constroem Laura como uma mulher de grande motivação, que acaba por reconhecer os seus erros e a aprendizagem que deles advém, conseguindo criar autonomia, lidar com os seus receios e distanciar-se da incorrigibilidade e a prepotência do seu pai…que aos seus olhos, vai deixando de ter piada.

Sofia Coppola materializa também o desmoronar e desabrochar de Laura e este jogo de sentimentos e ressentimentos, através de uma Nova Iorque pré-pandemia.

Se no início o minimalismo estético e os interiores mais despidos acompanham a timidez de Laura, ela que é primeiro filha de Felix, esposa de Dean, espectadora da sua própria vida…e só depois Laura; à medida que o filme avança, as ruas e os lugares chique das vivências de Felix vão ganhando presença, fazendo com que Laura reconheça o seu próprio privilégio e a força das influências que a rodeiam. Criando assim, um misto de melancolia e sensibilidade despreocupada, que lhe irá trazer a coragem necessária para descobrir a sua própria voz.

On the Rocks“, comédia doce, traz-nos uma realizadora madura: criou uma viagem que nos retorna aos terrenos de “Lost in Translation” (2003), como se “On The Rocks” atualizasse o auto-retrato de Sofia, que depois do peso emocional de “Somewhere” (2010) e “Beguiled” (2017), acaba por se desvincular das referências ao seu próprio apelido.


About The Author
-

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>