“Os Órfãos de Brooklyn”: Edward Norton faz grande viagem à era “noir” do cinema americano.

⭐️⭐️⭐️⭐️ Como argumentista, realizador e protagonista principal, Edward Norton leva os espectadores até aos anos 50 de Nova Iorque.

O reflexo dos neons nas poças de água, uma baforada de fumo que se ergue sobre um candeeiro de rua, diálogos debitados à velocidade de uma tommy gun e uma banda sonora jazz be-bop a inundar a tela iluminada por altos contrastes. Isto é noir. Um estilo com marginais e corruptos num beco escuro, detectives lacónicos e femme fatales.

Surgidas durante a Segunda Guerra Mundial, onde exploraram a inocência perdida e as normas sociais, desmascarando os comportamentos e as figuras de poder, as narrativas noir sempre foram pautadas por um herói estoico, de raiva reprimida, melancólico e introspectivo. Um private eye críptico, solitário, que personificou o ser-se cool, com a sua gabardine molhada e o olhar inquisitivo que substituía a intenção das suas parcas palavras.

Na adaptação de Os Órfãos de Brooklyn, Edward Norton, como argumentista, realizador e protagonista principal, pega nas personagens do escritor Jonathan Lethem, e transporta-as dos anos 80 para os anos 50, re-interpretando esta figura icónica que teve origem nos livros hard-boiled dos anos 20. E vira-a ao contrário, dando-lhe palavras que não quer dizer, intenções que não quer mostrar.

Lionel Essrog é um detective com Síndrome de Tourette, uma perturbação neurológica crónica que se manifesta em tiques motores e vocais involuntários, rápidos e repetitivos. Como devem imaginar, algo nada conveniente quando se quer fazer bluff, pois as palavras brotam de si nos momentos mais inoportunos.

Lionel ou “Freakshow”, como é apelidado, parte num périplo para resolver o assassinato de seu mentor e único amigo, Frank Minna (Bruce Willis), a epítome do detective da velha guarda. Em busca de respostas, mergulha num universo de corrupção, envolvendo-se de várias personagens basilares com uma palavra a dizer na edificação da cidade de New York.

Com ecos de Chinatown, filme de Roman Polansky, ou Who Framed Roger Rabbit de Robert Zemeckis, Os Órfãos de Brooklyn também parte da premissa de que a cidade cresceu assente em negócios tortuosos, preconceitos racistas e abuso de poder vindo de magnatas ambiciosos. Neste caso, Moses Randolph, o auto-proclamado salvador da cidade, representado vorazmente por Alec Baldwin.

Mas mesmo que tudo se torne mais perigoso, quanto mais Lionel se afunda na trama, mais a sua personalidade obsessiva age, não lhe permitindo desistir ou desligar de certas pontas soltas. E a sua compulsão incansável, que era o seu tormento, tornar-se-á o seu grande talento.

Para isso, irão também contribuir Willem Dafoe, no papel do misterioso Paul, um idealista ostracizado com mais respostas do que perguntas; e Gugu Mbatha-Raw como Laura, a anti femme-fatale que irá dar um lugar seguro a Lionel, abrindo-lhe o mundo electrizante do jazz, onde a espontaneidade, a polirritmia e a atonalidade, o vão seduzir e fazer-se sentir compreendido. Toda esta sequência de auto-descoberta de Lionel é o nosso grande momento de empatia com a personagem, que irá ter o seu grande retorno no confronto final com o big-boss de New York.

De argumento repleto de sub-narrativas, algo gratuito nos ganchos de desenvolvimento, Os Órfãos de Brooklyn é para fãs de filmes noir, dispostos a deleitarem-se com o género e a homenagem ao mesmo. Se assim não for, poderão achar o filme algo monótono, lento e simplório na forma como explora os tropos do género, onde a indispensável caixa de fósforos como primeira pista ou a técnica da “arma de Chekhov” são escancaradas na nossa frente.

Com uma recriação histórica deslumbrante da cidade, onde até a famosa Penn Station foi reestruturada para a década de 50; o uso de uma banda-sonora de jazz negro e meloso, plenamente reconstruída por Daniel Pemberton, de acordo com os cânones da musicalidade dos filmes dos anos 40 e 50; a introdução de uma edição arrítmica que procura representar a mente distorcida de Lionel; e a cinematografia de Dick Pope a relembrar o trabalho de fotógrafos como Robert Frank e Vivian Maier, ou o sempre referido pintor, Edward Hopper; Edward Norton compõe uma carta de amor à cidade de New York.

Explorando temas como discriminação racial, gentrificação e uma personagem marginalizada que irá sobrepor-se a tudo isso, Os Órfãos de Brooklyn é um drama noir que nos transporta para uma era do cinema americano.

“Os Órfãos de Brooklyn”: nos cinemas a 14 de novembro.

Crítica: Daniel Antero


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