Pieces of A Woman: pelos escombros de uma vida.

⭐️⭐️⭐️

No seu primeiro filme em inglês, o realizador húngaro Kornél Mundruczó (“Fehér Isten” e “Jupiter Holdja”) e a argumentista Kata Wéber, movem os escombros da vida de Sean (Shia LaBeouf) e Martha (Vanessa Kirby), um casal cuja relação se desmorona após uma trágica perda.


Ainda estamos a conhecer este casal de Boston quando Martha entra em trabalho de parto. Sean chama a parteira a sua casa. A partir deste momento, num plano ininterrupto de 24 minutos, Mundruczó guia-nos numa veia de emoções, pulsante, arrítmica e inerte…

Com a intensidade do género body horror e a expectativa melodramática da iminência de vida, imergimos na euforia, preocupação, receio e dor de Martha. Submersos e presentes espiritualmente no interior daquela casa, (lado a lado com a câmara de Benjamin Loeb), somos nós também arrancados de fôlego, quando Martha abraça a recém-nascida e Sean grita para que a ambulância chegue. O título do filme surge: Pieces of a Woman.

Introdução que fica no nervo, esta cena defrauda o próprio Mundruczó. Depois do impacto, as ondas de choque do filme vão-se espalhando por linhas narrativas descartáveis e banalização de temas. Mas a força vai-se concentrando nas interpretações, com destaque para Kirby.

No restante da narrativa, Mundruczó e Wéber, que na vida real são parceiros e sofreram um infortúnio semelhante, lidam com o luto do casal. A angústia assombra e a dor permanece. Se Sean explode e exterioriza, Martha fecha-se, enclausurando-se.

A condição cruel de Martha é interpretada por Kirby com um espírito brutal, de anseio e tormenta num corpo que se manifesta sem que ela o controle, enquanto olha a ausência de algo que impera e ganha um trato espiritual, incomunicável.

Com a agonia bem presente, Martha / Kirby reprime as suas emoções, dando preponderância austera aos simbolismos de Mundruczó e Wéber, por vezes demasiado flutuantes e sem solo. Se para Martha é uma semente de maçã que germina, para Sean, construtor civil, é o desmoronar de uma ponte.

Com analogias algo forçadas e o ritmo da narrativa a abrandar, seguimos assim um quadro fragmentado de um ano, onde Martha procura unir as suas partes, sofrendo com o seu marido, a sua mãe (excelente Ellen Burstyn) e a parteira (Molly Parker), entretanto enxovalhada em praça pública, com todo o nefasto momento transformado em caso de tribunal. E é aí que terá a sua catarse.

Depois de confrontos de feridas abertas e cortar de laços, a sua viagem emocional terminará, e Martha/Kirby irá devolver a Mundruczó e Wéber as peças de dor que eles próprios desenterraram, aceitando que jamais unirá(am) os seus próprios fragmentos.


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