Teste METROID: SAMUS RETURNS (3DS)

Há muitos anos atrás, quando a internet ainda só era uma miragem e reinavam as 8 bits no recreio das escolas, o dinheiro era escasso no bolso de um puto com 10 anos. Chegava no máximo para 2-3 saquetas de cromos por semana e, se fôssemos mesmo mesmo poupadinhos, comprar mais do que um jogo por ano para a nossa consola de eleição. Esta era, por necessidade, a época de ouro da troca de jogos no recreio, uma prática fundamental para quem já estava farto de jogar o mesmo título vezes sem conta. Já tínhamos decorado o Mario de trás para a frente, e as nossas jovens mentes pediam novidades.

Por isso, quando numa tarde de verão fui abordado por um amigo para lhe emprestar o meu prezado cartucho de Ikari Warrior (melhor jogo 8 bit de sempre!) em troca de um tal Metroid para a NES, aceitei sem pensar duas vezes. Não havia como recusar. Há semanas que ele não falava de outra coisa, que este “se passava num mundo misteriosos, com inimigos e armas nunca antes vistas… que era a melhor coisa que alguma vez jogara”. Com a minha jovem imaginação ao rubro, corri para casa e inseri o cartucho na NES, com a certeza absoluta de que iria adorar o jogo.

Mas acontece que não gostei. Simplesmente não sabia o que pensar. Estaria perante um jogo de acção, ou antes de uma aventura? Mas e porquê é que não conseguia avançar nos níveis, mesmo depois de eliminar todos os inimigos presentes na sala? Encontrava-me diante de algo tão diferente e inesperado que, mesmo depois de inúmeras tentativas, simplesmente não entendia o jogo. Acabei por o devolver pouco tempo depois, desiludido com a experiência.

Esta desilusão fez com que tivesse ignorado Metroid durante um bom par de anos, tendo só voltado a pegar na série quando esta entrou na 3a dimensão com Metroid Prime, título lançado para a Gamecube em 2002. Não prestei por isso grande atenção quando em 1991 Metroid 2 chegou ao Game Boy, ou quando, pouco tempo depois, o Super Metroid da SNES arrecadava prémios e elogios na imprensa de todo o mundo.

Metroid 2 em toda a sua glória 8 bit

É por isso que, desejoso de recuperar o tempo perdido e já familiarizado com o gameplay característico da série, desta vez não vou falhar a oportunidade de jogar Metroid: Samus Return para a 3DS, o remake de Metroid 2 para o Game Boy.

Nesta versão, como há 26 anos atrás, voltamos a vestir a fatiota espacial da caçadora de recompensas Samus Aran, na sua missão de exterminar os titulares Metroids do planeta SR388. Estes, talvez já a espera da sua visita hostil, esconderam-se algures num enorme complexo subterrâneo de caves. Não resta por isso outra alternativa à nossa heroína do que mergulhar nas entranhas do planeta e exterminar os Metroids um a um, precisando pelo caminho de se defender de inúmeras criaturas hostis que também por lá habitam.

Para tal, tem ao início ao seu dispor um arsenal limitado: uma pistola laser e uns quantos rockets. Para contrariar esta falta de poder bélico, foi felizmente prendada com uma genética impecável: salta, rodopia e agarra-se a qualquer canto com uma agilidade olímpica, não presente no titulo original. Talvez para compensar o facto de, na versão de 1991, ela começar a aventura com um arsenal mais recheado, como a habilidade de se transformar em bola e de plantar minas, habilidades que nesta versão ela terá primeiro de encontrar para usar.

Mas as diferenças para o jogo original não se ficam por aqui. Graças ao maior número de botões presentes na 3DS, desta vez Samus também tem a habilidade de esmurrar os adversários, num golpe de contra-ataque (à la Dark Souls). Se o golpe for dado no preciso momento em que o inimigo chega perto da heroína, este fica atordoado e com as defesas em baixo. Fica assim vulnerável a um golpe de misericórdia, o que o faz deixar cair mais energia e ítens do que se tivesse sido eliminado de maneira normal. É uma mecânica de risco-recompensa que, à medida que os inimigos vão ficando mais difíceis, se torna essencial para conseguir energia suficiente para prosseguir a aventura.

Uma lady com um gancho letal

Outra das novidades em relação a Metroid 2 é que, pouco tempo depois de começarmos a descida às profundezas do planeta, encontramos um scanner que nos permite mapear a área envolvente no ecrã inferior. Este assinala as áreas que já foram descobertas, as que ficaram por explorar, onde se encontram elevadores, saídas e pontos de salvaguarda do jogo, entre outras informações. Inclusive permite ao jogador deixar marcas no mapa, para assinalar pontos de interesse. Nada disto esta presente na versão Game Boy, muito devido às limitações tecnológicas da modesta 8 bit.

Mas as novidades não se ficam por aqui. Além do óbvio upgrade a cores e o uso de personagens feitas em polígonos, também há novos inimigos e uma banda sonora que se insere muito bem no universo Metroid. Esta em muito contribui para recriar aquele ambiente solitário e misterioso, característico das aventuras Metroid. Também vai uma menção honrosa ao uso do efeito 3D estereoscópico que a 3DS permite. Aqui este realmente adiciona algo mais à experiência de jogo, ao dar profundidade às caves e ambientes envolventes. Quem jogar este jogo numa 2DS fica um pouco a perder.

Mas o jogo não é perfeito. Há 40 Metroids para caçar, e às vezes é difícil dar com eles naquelas alturas em que o mapa não indica em que zona se encontram. Não acontece sempre, mas por vezes andamos pelo mapa perdidos à procura de alguma indicação para onde nos devemos dirigir. E à medida que o mapa vai aumentando, essas situações tendem a se repetir. E depois, quando finalmente damos com o alvo, a táctica para o derrotar tende a ser sempre a mesma, depressa tornando o que poderia ser o clímax do nível, num obstáculo pouco interessante. Nem todos os boss’s são assim, e lá para o fim já temos de empregar todas as técnicas e armas que temos à nossa disposição, mas na grande maioria das vezes deveria ter sido feito um esforço criativo maior.

Por tudo isto, podemos dizer que este não é tanto um remake, mas sim uma reimaginação de Metroid 2. Em vez de se limitarem a simplesmente refazer o jogo, os espanhóis da Mercury Steam souberam pegar nos melhores elementos dos jogos Metroidvania (termo que identifica o tipo de gameplay encontrado em Metroid e Castlevania) e homenagear a série com um título que se adapta às mil maravilhas à jogabilidade em portátil, não ignorando as novidades introduzidas por títulos indie recentes como Axiom Verge (2015) ou Shadow Complex (2009).

A última vez que a Nintendo lançou um Metroid 2D para uma portátil foi o Metroid Zero Mission para o Game Boy Advance, há já 14 anos atrás. Quem sempre desejou ver a série voltar a uma portátil num jogo 2D tem de votar com a carteira e comprar este Samus Returns, que não se vai arrepender. E talvez a Nintendo note o interesse que existe, e aposte num jogo 2D para a Switch, quem sabe? Se o modesto poder gráfico da 3DS permitiu criar esta aventura, então nem quero imaginar o que o da Switch permite alcançar.

 

 


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