Star Wars: The Last Jedi – visto pelo lado Sith da Força

Envolvo-me agora da personalidade mimada do Kylo Ren e da tirania de Snoke, para ver o grande filme de natalício deste ano, com olhos Sith.

Atenção, como membro do lado negro da Força, obviamente que este texto terá spoilers. Muitos.

Star Wars: The Last Jedi é um filme Star Wars na sua plenitude, épico e repleto de espírito de aventura. Mas comete os mesmos erros de sempre.

Todos sabemos que quanto melhor o vilão, melhor o nosso herói, certo? Então, porque é que continuam a optar por despachar fantásticas personagens do universo cinematográfico à primeira oportunidade?

Parece que se assustam com a força, talento, destreza e astúcia destes estrategas, e decidem que só a imprevisibilidade de um coração puro é que vai pôr termo à sua fúria. Então, cá vai disto, passado uma hora e meia de nos ter sido apresentado e da sua capacidade não estar a 100%, matam-no.

Falo de Darth Maul naturalmente, e agora, Snoke. Interpretado pelo incrível Andy Serkis, que com “camadas” de CGI em cima, consegue ser a personagem mais profunda e menos cartoonesca deste novo episódio.

Snoke

Snoke surgiu na saga cinematográfica envolto em mistério, como espectro, no Episódio VII. Nesta nova iteração, deram-lhe carne e osso para uma altura de 2,10m e sentaram-no num trono guardado por Guardas da Elite Pretoriana. Dali, lidera a Primeira Ordem com malícia, sarcasmo e brutalidade.

É ele quem une as mentes de Kylo e Rey, ajudando o puto mimado a mascarar as suas emoções e a alimentar o lado negro da força, dentro de si. É Snoke que consegue com um simples aceno, neutralizar Kylo.

Mas perdendo-se num acesso de sede de vingança e desejo de morte, não vê a raiva controlada de Kylo manifestar-se contra si, através de um sabre de luz que se movimenta com forças psiônicas ao seu lado.

E com um golpe mesquinho, o Supremo Líder morre com o corpo dividido em dois, subjugado à leviandade assassina de um emo kid, que por acaso era seu aprendiz, que por acaso ele conseguia controlar a mente, que por acaso tinha à sua volta a Guarda Pretoriana. A sério que ele não previu isto a acontecer?

Espero voltar a vê-lo nos spin-offs, mas sinto que se perdeu a oportunidade de ter uma tríade do mal composta pelo “Deus” Snoke, “Filho” General Hux e “Espírito Santo” Kylo Ren, para aniquilar a Resistência.

Um parêntesis para o Armitage  Hux, que interpretado por Domnhall Gleeson, é o comic relief das trevas, o geek da sala de aula que estudou tudo e mais alguma coisa, mas é abafado pelos acessos de estrelato do filho da professora. A dinâmica entre Hux e Kylo tem desdém, escárnio e humor, mas a linhagem de Kylo é mais forte e Hux tem medo de levar um carolo.

Armitage Hux

Avancemos agora para Kylo Ren, o vilão desta nova trilogia, que parece que ainda vai a tempo de emendar todos os memes da internet. Sob os ensinamentos de Snoke, abandona a sua máscara e assume-se com a sua imberbe face e peitos depilados… a internet explodiu com a cena musculada e Kylo sentiu o efeito AXE: sente-se poderoso, bem cheiroso, e os inimigos vêm ter com ele, hipnotizados.

Kylo Ren

Adam Driver conseguiu ser desprezível, irritante e alvo de gozo, após ter surgido em Force Awakens. Tudo isto porque representa uma figura predadora e desequilibrada, seduzindo Rey e magnetizando todas as cenas. Não cresceu da melhor forma, com uma adolescência atribulada cheia de birrinhas e complexo de Édipo, mas, mesmo sem estratégia para se tornar o Líder da Galáxia, sustenta-se para o terceiro episódio, como uma criatura assustadora, vil e sem controlo.

E como, quanto melhor o nosso vilão, melhor o nosso herói…Rey beneficia com isso.

Rey

A aprendiz de Jedi parte para uma ilha remota em busca de Luke Skywalker, implorando para que este volte, para ajudar a General Leia Organa e os seus rebeldes. E quanta ajuda não precisam eles! A sério, se eu vivesse naquela era, juntava-me aos stormtroopers. As hipóteses de sobrevivência são muito maiores. E depois, não andaria sempre irritado com a falta de comunicação. Esta equipa precisa de coaching!

Então custava alguma coisa à nova líder Holdo, explicar ao Poe qual era o plano principal? Não. Opta por ficar caladinha, o que leva Poe e Finn a engendrar um plano, que serve somente o propósito de colocar Finn frente a frente com a Captain Phasma. E de pôr Poe no lugar, já que este anda com a mania.

Holdo

Mas pela astúcia da General Leia, alguns sobrevivem e enfrentam a armada negra, enquanto aguardam o retorno da futura nova Jedi.

Entrentanto na ilha, Rey acaba por quase merecer uma 80´s montage de exercício físico Jedi, mas Rian Johnson achou que era demais e alimenta o seu treino com cenas de causa / consequência tão rápidas, tão falsas, que nos faz questionar da força do seu mestre, e da real necessidade dela ali estar. Fico aborrecido, porque queria ver Luke às costas de Rey, como Yoda às costas de Luke. Tinha piada.

Mas todo este arco narrativo é a auto-descoberta de Rey, da sua Força, da sua família, da sua doutrina. E quem a mais apoia nessa contenda é o viperino Kylo Ren, que lhe “telefona” telepaticamente todas as noites, qual puto borbulhento, para se queixar. E no final das contas revelar o seu maior segredo: ele sabe quem são os pais de Rey.

Desde Force Awakens, aguardava uma revelação incrível, como por exemplo Rey ser neta de Obi Wan Kenobi ou afilhada de Qui-Gon, mas o segredo que Kylo Ren mordazmente lhe conta, é de que a nossa nova Jedi foi renegada e veio do nada. E do nada se ergueu. E isso mostra que a Força que irá salvar a Resistência pode vir de qualquer um de nós. Poético, não? A não ser que seja mentira.

Têm de perguntar a Luke Skywalker.

Esperem, afinal, não.

Porque ele morreu.

É a catarse e o clímax deste episódio VIII. Sinceramente, aguardava este desfecho no episódio IX. Uma trilogia, três filmes para cada personagem se despedir como mito: Han Solo no VII, Leia no VIII, dadas as malogradas semelhanças com a realidade, e Luke no IX.

Mas decidiram que Luke saíria agora de cena, enfrentando sozinho o líder rabugento da galáxia, ganhando tempo para Resistência fugir.

Mas antes disso, tem de treinar Rey, fazer as pazes consigo mesmo, reencontrar-se com o mestre Yoda e ser aconselhado para queimar o que resta da doutrina Jedi. Depois de se despedir de Leia com candura, graça e leveza, enfrenta a besta. Mas a luta interior que Rian Johnson inclui em Luke é um pouco inverosímil. Demasiada indecisão no suposto sumo pontífice Jedi.

Mas..neste duelo, tudo que é meio blah, tudo que aceitamos com condescendência e damos o benefício da dúvida, tudo aquilo com que não estamos satisfeitos do que vimos para trás…NÃO INTERESSA!!!

Luke é bad-ass! É um samurai com destreza, sereno, ultra-mega super poderoso…e nem sequer está lá fisicamente. Encontra-se ainda na ilha, em posição Zen, a lutar espectralmente com Kylo Ren. E depois desmaterializa-se para os dois sóis de Tatooine, sacrificando-se, deixando um vazio nos rebeldes…snif, snif… Eu disse que ia haver spoilers.

Muitas opções em aberto, muitas linhas narrativas que podem ser desmentidas. Em Star Wars: The Last Jedi, Rian Johnson provou à Disney que tem a Força para criar mais uma trilogia. Aceitando ou não as suas opções, ignorando ou não os buracos no argumento, assumindo ou não a verdade das decisões das personagens, admito que todo este texto não passa de uma birra 🙂 ! The Force shall free me.

Star Wars faz-nos sentir nostálgicos no primeiro minuto, transporta-nos para o espaço em segundos e alimenta-nos de fantasia e imaginação a cada novo episódio.

Menos o Rogue One.

Nesse adormeci, de tão bom que era…

P.S. No final, o ciclo da fantasia como que se fecha: aparece o Harry Potter com uma vassoura a olhar a galáxia.

P.P.S. O que é que fizeram ao Admiral Ackbar? Mataram-no sem a devida pompa? Eu sei que em tempo de guerra, não se limpam armas…mas, it´s a trap?


About The Author
-

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>