“Tenet”: um algoritmo de intensidade visual e ambição desmesurada de Christopher Nolan

⭐️⭐️⭐️ Realizador flexiona o tempo, as personagens e o seu ego num “thriller” de espionagem internacional.

SINOPSE: Armado apenas com uma palavra –Tenet – e lutando pela sobrevivência do planeta, o Protagonista viaja pelo mundo penumbroso da espionagem internacional numa missão que irá desvendar algo além do tempo real. Não se trata de uma viagem no tempo. Mas sim, uma inversão.


Para arrancar: “Tenet” não é o filme salvador da indústria do cinema ou a obra revolucionária que muitos vaticinaram, apesar do “hype” dos fãs do realizador Christopher Nolan, muito aliciados pelo secretismo enigmático que normalmente envolve os seus projetos.

A seguir: mas é um ótimo ponto de partida. Feito à escala IMAX, é um monumental ataque aos nossos sentidos. A propulsão ao longo do filme é evidente, marcando-nos a nível fisiológico, quer seja pela trepidação da sala, resultado da distorção da banda sonora de Ludwig Göransson, ou pelo encadeamento, da luz fria e deslumbrante da fotografia de Hoyte van Hoytema.

Extravagante, Nolan joga todos os seus truques sensoriais, marcas registadas e refinadas nos seus últimos filmes, através de cenas com recurso a efeitos práticos. Podem surpreender pela simplicidade narrativa, mas o conceito visual escondido na palavra TENET, um palíndromo, é o fator diferenciador.

Tal como em “Inception”, onde Nolan usou a estrutura do “filme de assalto” para manipular mente, sonho e memória, “Tenet” articula na sua narrativa de “thriller” de espionagem a manipulação do tempo. Mais concretamente, a sua inversão.

“O Protagonista” (John David Washington), é um agente americano recrutado para impedir que um oligarca anglo-russo (Kenneth Branagh) ative a Terceira Guerra Mundial. Aquilo que ele não sabe, mas vai saber e se calhar até já sabia, é que ao inverter o fluxo da entropia, é possível inverter o fluxo de tempo de um objeto. E assim, aceder a uma dimensão onde objetos se movem tanto para a frente como para atrás no tempo, e alterar o desfecho final do mundo.

Ou seja, este é como um conto que une o aprumo estético dos filmes de James Bond com os sonhos “eisensteinianos” do físico Alan Lightman.

Pelo caminho, “O Protagonista” cruza-se com personagens estrategicamente colocadas, peças de um puzzle intrincado que existem para lhe fornecer respostas e teorias científicas. E este é o erro na equação de Nolan: abafados pelo “fogo de artifício” e panache, atores como Robert Pattinson, Michael Caine ou Elizabeth Debicki de pouco servem, não agregando dimensão e empatia.

O foco do realizador é o fundamento e a aplicação visual do seu conceito. Encoraja-nos a não questionar as regras da sua teoria física (mais uma vez supervisionada pelo físico Kip Thorne), pedindo-nos para “ter fé nas mecânicas do mundo” e a imergir neste princípio que envolve padrões matemáticos e simetrias.

Assim sendo, logo à partida, dado o paradoxo e a probabilidade de eterna irresolução, sabemos que determinados eventos ficarão por esclarecer. Portanto, assumimos o seu estímulo e aceitamos o que a cientista Laura (Clémence Poésy) nos diz: “Não tentes compreender. Sente-o.”

E para sentir e nos agitar, como já vimos, o realizador é mestre, criando ilustrações da ideia palindrómica em cenas como uma perseguição de carro onde uns avançam e outros recuam, balas em movimento invertido pelo ar, um combate corpo-a-corpo onde os adversários lutam através de linhas temporais diferentes ou a famigerada implosão/explosão de um verdadeiro Boeing 747.

Inventivas e um desafio para descortinar a execução técnica, não temos dúvidas que estes momentos serão mais ricos a cada nova visualização.

“Tenet” acaba por ser o filme mais conservador de Christopher Nolan, mas manipulação do tempo no cinema é sempre sinónimo de espetáculo. E nas mãos do realizador britânico é um gozo visual, cerebral e explosivo.

E depois de cinco meses de pandemia, onde todos procuram escapismo e divertimento, onde prevaleceu o “binge-watching” adormecido, as pernas entorpecidas e o nervoso miudinho que provavelmente escalou a alguma tensão exagerada, porque não aceitar o repto lançado pelo realizador e voltar à sala escura do cinema?


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