THE WITCHER – Fantasia medieval solene e selvagem com Henry Cavill

The Witcher é a nova aposta da Netflix.

Baseada na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski e com referências à série de videojogos lançada em 2007 pela CD Projekt Red, explana o universo do Continente. Resultado da Conjunção das Esferas, evento cósmico que fundiu várias dimensões num só plano, é um conjunto de reinos onde agora coabitam humanos, elfos, gnomos, magos, e claro, o famoso caçador de monstros: Geralt de Rivia (Henry Cavill).

Membro de uma guilda com cada vez menos membros, Geralt de Rivia viaja pelo deserto de Korath até ao Grande Mar, em busca de pagamento pela captura de criaturas como kikimoras ou strigas. Mutante, alvo de experiências mágicas, tem capacidades reforçadas, como resistência à dor, velocidade, visão no escuro…e claro, o seu cabelo branco, alvo de muitos comentários jocosos. Estes testes sobre o seu corpo e mente, levaram a que Geralt perdesse emoção, empatia, desenvolvendo cinismo e frieza.

Henry Cavill, num registo sério, mas de sorriso de escárnio presente, compõe uma personagem pesada, lacónica e brutalmente honesta, que prefere adiar ao máximo os confrontos violentos. Ciente das suas capacidades físicas, sabe que o resultado será sempre nefasto para o adversário. Aqui, Cavill é uma boa escolha de casting, não fosse ele o Superman actual, capaz de dar elegância e força a lutas, com as suas duas espadas ou a adaga, sejam elas filmadas em plano-sequência ou obrigando Cavill a acrobacias com quedas de seis andares. Para contrapor o seu silêncio, temos os seus momentos de confidência com o famoso cavalo Roach e o excesso de Jaskier, linguarudo e inoportuno bardo, que com o seu alaúde canta as façanhas do Lobo Branco.

Geralt de Rivia – Henry Cavill

Para além de Geralt, acompanhamos também a princesa Cirilla (Freya Allan), e a maga Yennefer (Anya Chalotra). Enquanto seguimos a fuga de Ciri, a sua relação com os aliados Mousesack, Dara, e as Dryads, guardiãs da Floresta Brokilon; vemos Yennefer na academia de Aretuza, transformando-se fisicamente, elevando os seus poderes a níveis nunca antes visto na Irmandade dos Magos, o grupo que influencia os reinos do Norte.

Cirilla – Freya Allan

Apanágio destas produções de fantasia, o foco está no design de produção e nos efeitos especiais. As cidades de Cintra, Blaviken, Nilfgaard, a academia feminina Aretuza com a sua gruta; a academia masculina Ban Ard, são locais de onde emergem influências eslávicas ou linhas medievais de cidades como Nuremberga. Florestas, castelos e adegas exploram a beleza da geografia de países como Áustria, Eslováquia ou Hungria. Não criará uma tour à imagem de Game of Thrones na Irlanda, mas é curioso ver os frutos da pesquisa da equipa encabeçada pela showrunner Lauren Schmidt Hissrich.

Yennefer – Anya Chalotra

Já os efeitos especiais crescem de qualidade à medida que galgamos episódios, mas mantém-se aquém de outras produções. As criaturas, as batalhas e claro, a magia, onde escudos e portais são factores predominantes da mitologia que suportam este mundo fantástico, trarão reminiscências a quem jogou os videojogos e materializam a imaginação de alguns leitores da saga.

The Witcher tenta ter a sua própria alma, procurando reencontrar-nos com o universo de sword and sorcery. Mas durante os cinco episódios que vimos, disponibilizados pela Netflix, a primeira temporada nunca atinge um nível de relevo, mantendo erros de montagem, efeitos especiais apressados, um ritmo inconstante nos diálogos expositivos e falta de tensão crescente. Algumas sequências são tão longas e aborrecidas, que temos vontade de abrir um portal e mudar de cena.

A partir do terceiro episódio, o estilo parece equilibrar-se e estabelece The Witcher como uma série cheia de teatralidade, pompa e solenidade nos beats de representação, deixando a Geralt o contraponto de acidez e sarcasmo, na tentativa de criar humor. De realização não muito esclarecida e alguma confusão espacial e temporal nos saltos entre as narrativas, é fácil perdermos o norte, obrigando-nos a recapitulações rápidas para nos voltarmos a situar. 

Mas quando a violência se manifesta, a selvageria e a brutalidade imperam nos combates, sabemos que era aqui que queríamos chegar. Infelizmente, isto não chega para impulsionar uma produção desta ambição e The Witcher terá de ir caçar monstros para outras terras.


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