“Tudo Pelo Vosso Bem”: Rosamund Pike eleva filme “neo-noir” divertido e sinistro da Netflix

⭐️⭐️⭐️

O filme é desequilibrado no todo, mas eficiente tanto quando é pesadelo “kafkiano” como “comic pulp” destravado.

SINOPSE: Uma tutora legal nomeada pelo tribunal defrauda os clientes idosos e engana-os sob a sua tutela. Mas a sua mais recente vítima esconde um segredo sombrio.


Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma loira fatal que faria corar Alfred Hitchcock de êxtase. A sua maldade predatória, intrincada num ciclo amoral de vigarice, é tão abominável que até o mestre do suspense teria gozo em deixá-la livre e manter a câmara a rolar.

Nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Actriz (Comédia ou Musical) por este papel, Rosamund Pike já tinha caminhado estes terrenos em “Gone Girl – Em Parte Incerta” (2014), de David Fincher. Interpretando uma sociopata materialista que encabeça um esquema implacável de abuso e maus-tratos a idosos, ela é o sangue viperino, elegantemente enervante de “Tudo pelo Vosso Bem“, que vai destruir tudo e todos sem apelo nem agravo.

Abrindo como comédia negra, “Tudo pelo Vosso Bem” rapidamente estende um desconforto que nos horroriza quando Marla, de sorriso gentil e autoridade tenaz, ataca a próxima vítima, abre a sua caixa de pandora de subjugação e terror psicológico sobre Jennifer Peterson (Dianne Wiest), atirando-a para uma casa de repouso.

De papelada legal na mão, protegida pelos tribunais, Marla aprisiona-nos com Jennifer num universo “kafkiano”, onde o realizador J. Blakeson nos faz partilhar da indignação, perplexidade e impotência. Com este passo, ele enceta uma crítica ao sistema de burocracias médicas e legais assente na guarda de idosos, que nos consegue tocar de forma sinistra e nervosa. Porque tem piada… até deixar de ter.

Infelizmente, não é por aqui que o realizador e argumentista pretende ir, perdendo a oportunidade de uma excelente sátira social subversiva. Mas posto isto, depois do aperto no coração e de já estarmos enamorados da vilipendia de Marla/Rosamund Pike, aparece outro vilão: é que Jennifer tem ligações com o mafioso russo Roman Lunyov (Peter Dinklage), fã de pastelaria e nada doce para os seus inimigos.

E assim começa um jogo de ataque e contra-ataque entre Marla e Lunyov, cheio de reviravoltas à boa moda dos “thrillers neo-noir” e um suspense que toma o seu tempo e nos entretém com o seu maquiavelismo. Pois J. Blakeson faz questão de nos lembrar: o crime organizado anda lado a lado com os protagonistas do sonho americano capitalista, de falinhas mansas e ilusões de manga curta.

Até ao final, acompanharemos Marla a tornar-se cada vez mais brutal e vil e a erguer-se como verdadeira líder criminosa… “Tudo pelo Vosso Bem”, nos dirá ela.


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