“Um Animal Amarelo”: Catarina Wallenstein num filme de chagas e “trip” tropical

⭐️⭐️⭐️

Cicatrizes coloniais prolongam-se pelo tempo e pelo espaço até uma dimensão de fantasia no novo filme de Felipe Bragança.

SINOPSE: Fernando é um falido cineasta brasileiro que parte numa jornada por Brasil, Portugal e Moçambique em busca de fantasmas do passado colonial e das memórias do seu avô, numa melancólica fábula tropical.


Fernando (Higor Campanaro) é um cineasta pelas ruas da amargura. Acompanhado de um osso de fémur herdado do seu avô, viaja por um império fustigado em busca de poderes e fortuna. Com ele, vigiando-o, segue um espírito, uma criatura sobrenatural que devora as suas paixões e arrasta consigo o trauma da escravatura: um animal amarelo.

Num “Filme Brasileiro”, como esta fábula se apresenta em letras garrafais logo de início, Fernando é “o” Brasileiro, o avatar que vive a narrativa escrita pelo realizador Felipe Bragança e o realizador português João Nicolau.

Os dois autores fazem Fernando viajar entre Brasil, Portugal e Moçambique, cruzando-o com outros intervenientes representantes do passado colonial, dançando pela memória coletiva através do realismo mágico, procurando despertar e questionar a identidade, a história e a relação promíscua entre os países.

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Com humor tanto tonto como mordaz, Bragança marca a decadência política e financeira, permitindo-se metáforas tanto transcendentais como escatológicas, que vão desde moçambicanos que defecam pedras preciosas a uma portuguesa (Catarina Wallenstein) que quer substituir o seu coração por um rubi.

De início auspicioso, com a componente fantasiosa mais forte e o belo recurso a animação “stop-motion” a cativar-nos de rompante, “Um Animal Amarelo” desenvolve-se em camadas, visitando várias eras e locais. Mas à medida que avança no tempo, o tear assombrado dá lugar a uma auto-referência que se esconde na ironia e na vontade de apontar a todos os lados, para cobrir várias celeumas do nosso passado comum.

Tempos e espaços unidos pela poética voz-off de Catarina (Isabél Zuaa), vão estratificando uma metalinguagem que antecipa e se sobrepõe ao ponto de vista de Fernando, convergindo a narrativa até um estado de meta-cinema, onde veremos a equipa de produção de “Um Animal” Amarelo intrincar-se no passado das personagens que filma.

Poético e fantasioso, Felipe Bragança perde algo da magia e da essência inicial quando se refugia no humor e na metáfora para dizer o que poderia ser dito de forma clara e incisiva.

Mas como um trauma que se quer sarar, para se encontrar a identidade única, não seremos todos assim?


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