Viver na Noite

“Viver na Noite” adapta o livro homónimo de Dennis Lehanne e conta a história de Joe Coughlin, um fora-da-lei de Boston com cabeça difícil de rachar, que se torna o todo poderoso de Tampa, terra do rum e das mulheres bonitas.

É um filme de gangsters passado na época da Proibição que acena o seu chapéu aos filmes da era Cagney e Bogart, onde não faltam as femme fatales (Zoe Saldana e Sienna Miller), os mafiosos cheios de classe (Remo Girone e Robert Glenister), os mártires (Elle Fanning e Chris Cooper), os representantes mais altos da honra e da moral (Brendan Gleeson)…e claro, o nosso “hard boiled”: Ben Affleck, actor principal e também argumentista e realizador do filme.

Por vezes energético e de excelente realização, com perseguições a alta velocidade e tiroteio desenfreado pelas escadarias de um hotel, é um thriller dramático, que explora vários episódios na ascensão de Joe, como a sua introdução na família cubana, a criação de clubes nocturnos e o confronto com o Klu Klux Klan, o planeamento de um casino nas margens do pântano e a luta contra o poder religioso que o acusa de promover a devassidão; a protecção do seu novo amor, a descoberta do seu antigo amor, a traição do seu novo chefe, a traição do seu antigo chefe…e…outras vezes cansado, pois como se percebe, o filme perde-se nas várias histórias em si encerradas.

E isto talvez aconteça porque Affleck está demasiado enamorado por si próprio, não deixando espaço ao desenvolvimento de outras linhas narrativas, com valor maior para questionar a moralidade de uma época de vício e decadência..nem aos outros actores… ainda por cima, quando sabemos da capacidade que tem para dirigir talentos: Amy Ryan, Alan Arkin ou Jeremy Renner foram nomeados para óscares, com participações em filmes do actor/produtor/realizador/argumentista/…

A opção de dar a si próprio o papel principal, funcionou ao contrário do esperado…pois a determinada altura até parece uma paródia narcisista ao Sad Affleck…onde todos falam e este somente ouve, com ar cínico ou cara de enterro…e isso vê-se em cenas simples, como aquela em que contracena com Matthew Maher, um ladrãozeco que se pinta mais do que é e que rouba a cena ao actor principal, com a mesma eficiência e qualidade que rouba os clubes de Tampa. Quem sabe, se tivesse escolhido o seu próprio irmão Casey , ou por exemplo Colin Farrell para o papel principal, não traria outro charme, gravidade  e magnetismo ao grande ecrã…

Mas apesar de tudo, “Viver na Noite” é sério, apaixonado e belo, através das mãos e do olhar do cinematógrafo Robert Richardson, que se excede sempre nestes filmes de época, e que ainda assim faz valer uma olhadela a este primeiro escorregão de Affleck como realizador.

ESTREIA: 12/01/16

 

 

 

 

 

 


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