“Wasp Network – Rede de Espiões”: armada ibero-americana de estrelas presa num “thriller” sem picada

⭐️⭐️ Apesar da concentração de talentos, o filme de Olivier Assayas não é mais do que uma aula de liceu sobre a história cubana recente.

SINOPSE: O piloto cubano René González deixa a mulher e a filha na ilha comunista, desertando para os Estados Unidos e iniciando uma nova vida em liberdade no início dos anos 1990. Mas René não é o ambicioso empreendedor que aparenta ser. Unindo forças a um grupo de exilados cubanos no sul da Florida, conhecido como Wasp Network – liderado pelo agente secreto conhecido como Gerardo Hernandez – torna-se membro de um grupo de espiões pró-castristas incumbido de vigiar e de se infiltrar em grupos terroristas cubano-americanos que tencionam atacar a república socialista.


Após o colapso da União Soviética (1990-1991), a esperança na destituição de Fidel Castro em Cuba começou a crescer. Cientes da crise económica, crentes na revolução, os emigrantes em Miami prepararam-se para agir.

Mas no seio dos grupos terroristas anti-Castro infiltrou-se uma equipa de espiões, responsável por comunicar informação para o estado cubano que os financiava.

A história destes agentes duplos está presente no livro “Os últimos soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, agora adaptado ao cinema como “Wasp Network – Rede de Espiões”, pelo respeitado realizador Olivier Assayas (“Clean”, “Boarding Gate – Porta de Embarque”, “Carlos”, “As Nuvens de Sils Maria”, “Personal Shopper”).

Apoiado por um “ensemble” de atores do primeiro plano ibero-americano, onde se incluem o venezuelano Edgar Ramírez, o brasileiro Wagner Moura, a cubana Ana de Armas, a espanhola Penélope Cruz, o mexicano Gael García Bernal e o argentino Leonardo Sbaraglia, o cineasta francês viajou até ao sol abrasador de Havana e Miami para construir um “thriller” labiríntico, factual e episódico.

Escrito sob contornos jornalísticos, a esquematização da narrativa guia-nos sem contextualização, enquanto concentra em si ocorrências da vida de personagens, cujas motivações para alianças ou confrontos, paixões e ideais, são superficialmente assinaladas apenas através do “sentido de missão” clamado por uma entidade maior.

Desbravando caminho pelos factos históricos, vamos seguindo as operações dos pilotos Gonzalez (Ramirez) e Roque (Wagner Moura), membros da organização anti-castrista “Brothers to the Rescue”, que seguem destinos diferentes, ora enleados em trabalhos para conseguirem sobreviver ou em negócios de contornos cada vez mais lamacentos. Mas sempre com um objetivo comum.

Enquanto o trajeto dos dois começa a ficar mais disperso, “The Wasp Network” e o seu realizador (que nos habituou a tensões de outro nível, como no excelente “Carlos”, também com Edgar Ramirez), vão perdendo o seu sentido de urgência. E à marca de uma hora, até parece perderem a paciência com eles mesmos…

Por esta altura é então a vez de Gael García Bernal entrar em ação e com a sua personagem chega também uma injeção estilística, à imagem das séries policiais dos anos 70, onde uma voz-off arrojada explicará finalmente o propósito, as táticas e as ligações entre todos os membros da “La Red Avispa” (a tal “Wasp Network”).

Trazendo consigo imagens de arquivo e política, libertando os espiões dos seus “alias” e fazendo com que Assayas deixe de estar incógnito, a premissa didática torna-se ainda mais forte neste argumento.

Nota-se que a linha temporal que fora sobrevoada largamente ao longo de grande parte de “”Wasp Network” tem agora um registo de ambição semi-documental, que claramente teria sido melhor sucedido em televisão (“Carlos”, vale a pena recordar, era uma minissérie com quase cinco horas e meia editada para uma versão cinematográfica de três).

Mas já foi tarde demais pois picou em tantos eventos que nos deixou dormentes e aliviados quando chega ao fim de pouco mais de duas horas…


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