“Wild Rose – Rosa Selvagem”: drama inspirador dá voz aos sonhos despedaçados

⭐️⭐️⭐️

Três acordes e a verdade pautam a excelente interpretação de Jessie Buckley num conto britânico sobre ilusões e sacrifícios.

SINOPSE: Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley), 23 anos, é uma talentosa, carismática e irreverente aspirante a cantora country, apesar da distância que separa Nashville (EUA) de Glasgow (Escócia). Acabada de sair da prisão e mãe solteira de dois filhos pequenos, as suas prioridades parecem não estar bem definidas. Para seguir o seu sonho terá de sair de Glasgow, o que significa abandonar os filhos; e ficar em Glasgow significa desistir da sua felicidade.

Os filmes sobre a classe operária e os seus sonhos despedaçados são apanágio do cinema britânico. Das personagens iludidas de Mike Leigh ao realismo social de Ken Loach, passando pelas crenças bem-sucedidas de um “Billy Elliot” (realizado por Stephen Daldry) ou “Os Virtuosos” (Mark Herman), seguimos as aspirações dos sonhadores, dos heróis da vila que cativam ou confrontam os que os rodeiam.

Fulcral para as ambições de um realizador que nos quer apaixonar e elevar no espírito resiliente e romântico destes argumentos é a performance do principal protagonista: o brilho nos olhos terá de contrastar com as mãos calejadas e o sorriso entusiasta deverá alimentar os pés cansados.

Em “Wild Rose – Rosa Selvagem”, de Tom Harper (o mesmo realizador de “Os Aeronautas”, feito depois mas estreou por cá antes, em dezembro), todo esse talento e fascínio está em Jessie Buckley, uma irlandesa que obteve visibilidade no concurso inglês “I’d Do Anything” e desde então tem vencido prémios e amealhado nomeações com este filme, como para os BAFTA 2020.

Ela é Rose-Lynn, tem dois filhos, saiu da prisão há pouco tempo e não tem propriamente muita capacidade de persistência. Tem sonhos, mas quer atingi-los já e de preferência em Nashville, capital da música country. Só que com a agrura das mãos que tocam os “três acordes e a verdade” – mantra que Rose-Lynn tem tatuado no braço – Tom Harper e a argumentista Nicole Taylor têm outros planos.

Com uma história esquemática, modelo tipificado de uma balada country onde a família e o trabalho andam sempre de costas voltadas com o sonho do estrelato, “Wild Rose” é cíclico e carimba a culpa na voz e acções de Rose-Lynn. Sempre que a conquista se avista, Rose encurta caminho com comportamentos destrutivos e atitudes orgulhosas, renegando os filhos e a mãe, (Julie Walters, que claramente em mais nova teria agarrado este papel).

A apoiar a dicotomia dos dois mundos está a direção de fotografia de George Steel, que distingue a luz do palco com a do asfalto, mesmo que Rose-Lynn fantasie e tente sempre unir as duas realidades, ainda que isso a leve a uma bifurcação onde terá de julgar os conselhos que Marion e o radialista da BBC Bob Harris têm para ela: aprender a ter responsabilidade sem perder a esperança e usar o talento da sua voz, mas com algo a dizer.

A alusão a um final saído de um conto de fadas está na trajectória neste melodrama que nos soa a “biopic”, mas com a realidade e a responsabilidade sempre a pesar, sabemos que algo terá de ser sacrificado…

“Wild Rose – Rosa Selvagem”: nos cinemas a 20 de fevereiro.

Crítica: Daniel Antero


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